FAPESP reúne seis décadas de pesquisa e apresenta estudo coordenado por André Sawakuchi sobre origem geológica e biodiversidade amazônica
O Projeto de Perfuração Transamazônica, coordenado pelo geólogo André Sawakuchi do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, é um dos destaques da nova exposição virtual lançada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. A mostra apresenta seis décadas de investigações científicas sobre a floresta, suas transformações e sua relevância global. Disponível no site do Centro de Memória da fundação, a exposição reúne imagens, áudios, depoimentos e textos que percorrem desde expedições pioneiras em zoologia até estudos de geologia profunda e ciências sociais. O lançamento ocorre durante a COP30, realizada em Belém, e propõe uma reflexão sobre o papel da ciência na compreensão da Amazônia e na construção de estratégias de conservação diante da crise climática.
O projeto busca entender a origem e a evolução da Amazônia e do clima da América do Sul tropical, além de investigar como a formação geológica do bioma influenciou sua biodiversidade atual. Entre 2023 e 2024, a equipe do Instituto de Geociências realizou perfurações contínuas no subsolo de Rodrigues Alves, no Acre, e de Bagre, na Ilha do Marajó, no Pará, atingindo profundidades de 923 e 924 metros. Os registros obtidos remontam a cerca de 25 milhões de anos. A perfuração contínua permite recuperar amostras ininterruptas de solo, rocha e sedimentos. Segundo Sawakuchi, as bacias sedimentares da região funcionam como um arquivo natural que guarda vestígios de rochas, florestas e micro-organismos que viveram em ambientes antigos. Esses registros incluem pólen fossilizado, sedimentos fluviais e sinais de variações climáticas que revelam transições entre ambientes marinhos e florestais. Em algumas camadas, fósseis de organismos marinhos indicam que o mar do Caribe ocupou parte da Amazônia ocidental em determinado período geológico.
A análise do material permitirá compreender como o bioma evoluiu até se tornar o mais biodiverso do planeta e quais fatores moldaram a atual configuração de rios, solos e vegetação. Sawakuchi explica que esse conhecimento também é fundamental para interpretar o presente, já que a biodiversidade influencia o clima e molda ambientes. Além da relevância científica, o projeto envolve um esforço logístico de grande escala, com meses de trabalho de campo, transporte fluvial de equipamentos, montagem de acampamentos, turnos de coleta e envio das amostras para laboratórios no Brasil e no exterior. A iniciativa evidencia que estudar a Amazônia em profundidade exige tecnologia, coordenação e sensibilidade socioambiental. O trabalho mostra que a floresta é também um repositório geológico da história da Terra e que as mudanças ambientais do passado ajudam a projetar cenários futuros.








