Vida Mais Sustentável

Ilha da Amazônia receberá sistema de construção sustentável modular desenvolvido por docente da Unesp

Projeto da Unesp e da UFPA instalará protótipo no Observatório Magnético de Tatuoca com materiais regionais e foco em habitação ribeirinha

Uma ilha localizada no rio Pará, no estado do Pará, receberá o novo sistema de construção sustentável desenvolvido por docentes da Unesp. Elaborado em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA) e financiado pelo Programa Integrado de Desenvolvimento Sustentável da Região Amazônica (Pró-Amazônia), do CNPq, o projeto utilizará recursos naturais típicos da região para criar uma estrutura leve, resistente e modular.

A iniciativa segue a experiência da Casa da Floresta, espaço sustentável erguido na periferia de Belém (PA). A Casa da Floresta possui estrutura geodésica feita com ripas de bambu e folhas da palmeira buçu, com aberturas na altura do solo e claraboia que favorecem ventilação, resfriamento e iluminação natural.

Construída pela Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da Unesp em parceria com o Instituto Peabiru, a Casa da Floresta está localizada em Acará, na Grande Belém, e funciona como espaço aberto ao público durante a trigésima Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, articulando conhecimento científico, cultura e saberes tradicionais.

A estrutura foi projetada pela arquiteta Juliana Cortez, docente da Faculdade de Ciências e Engenharia da Unesp, câmpus de Itapeva. Durante o trabalho, Cortez conheceu Cristiano Mendel, professor e vice-diretor do Instituto de Geociências da UFPA. A universidade atua na gestão e nas pesquisas do Observatório Magnético de Tatuoca, instalado em uma ilha desabitada a doze quilômetros de Belém.

O novo protótipo será montado justamente nessa ilha. O sistema será composto por módulos sustentáveis, de fácil transporte, que poderão ser encaixados no local. A proposta busca atender comunidades ribeirinhas que enfrentam dificuldades logísticas na construção de moradias.

“Diferentemente da Casa da Floresta, em que montamos um pavilhão geodésico, neste projeto queremos criar peças modulares pré-fabricadas, leves, que possam ser levadas em um barco e montadas no próprio local”, explica Cortez.

O Observatório Magnético de Tatuoca, vinculado ao Observatório Nacional do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), realiza medições contínuas do campo geomagnético terrestre e integra a rede internacional Intermagnet. No Brasil, apenas o município de Vassouras (RJ) possui estrutura semelhante.

A instalação em uma ilha sem moradores e com poucas construções é estratégica. A proximidade com o Equador geográfico e magnético torna Tatuoca ideal para coleta de dados. Além disso, a ausência de automóveis e atividades econômicas evita interferências nos instrumentos de medição.

Segundo os pesquisadores, o simples deslocamento de um automóvel a cem metros dos equipamentos já produz ruídos que comprometem as leituras. Materiais ferromagnéticos também podem alterar os resultados.

“A presença de um vergalhão de aço ou mesmo de um parafuso já cria interferências e compromete os dados enviados a centros de todo o mundo”, explica Mendel.

Embora essencial para o observatório, o uso de materiais naturais também busca atender um público mais amplo. O contexto amazônico impõe desafios à construção civil: transporte feito por canoas, deslocamento manual de materiais e risco de danos à vegetação quando se utilizam embarcações ou máquinas grandes.

“É assim que as populações ribeirinhas sempre construíram. Respeitar esse contexto é fundamental. Surge então a necessidade de arquitetura adaptada à realidade amazônica. A aplicação no observatório será um teste de prova. Se funcionar ali, funcionará em qualquer lugar da Amazônia”, afirma Cortez.

A coordenação do projeto será do professor Carlos Emmerson Ferreira da Costa, docente da UFPA e responsável pelo Laboratório de Óleos da Amazônia, no Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, em Belém. Ele lidera equipe com mais de duzentos pesquisadores dedicados ao estudo de insumos amazônicos para setores de alimentos, cosméticos e bioprocessos. O conhecimento acumulado sobre funcionalidades e aplicações desses recursos será essencial para o desenvolvimento do protótipo.

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