Novas regras exigem que companhias expliquem como eventos climáticos e sustentabilidade impactam resultados, custos e continuidade dos negócios
Riscos climáticos e de sustentabilidade deixaram de ser apenas um tema ambiental ou reputacional e passaram a integrar, de forma oficial, a análise financeira das empresas. Novas regras internacionais determinam que companhias expliquem, com dados estruturados, como eventos climáticos, consumo de energia, cadeia de fornecedores e riscos ambientais afetam resultados, custos e a continuidade dos negócios. No Brasil, a exigência inicial alcança empresas de capital aberto, mas os efeitos já se espalham para empresas médias e fornecedores que não atuam no mercado de ações.
As normas foram emitidas pelo International Sustainability Standards Board e começaram a ser incorporadas ao ambiente regulatório brasileiro, especialmente para companhias supervisionadas pela Comissão de Valores Mobiliários. A lógica é clara: investidores, bancos e seguradoras querem entender se as empresas são resilientes diante de riscos climáticos e de sustentabilidade e quanto isso pode custar no curto, médio e longo prazos.
Segundo Eliana Camejo, conselheira de administração pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa e vice-presidente da Sustentalli, organização que reúne profissionais especializados em governança, sustentabilidade, gestão de riscos e reporte corporativo, sustentabilidade deixou de ser discurso institucional. Hoje, é tratada como risco financeiro, com impacto direto no valor da empresa, no acesso a crédito e na permanência em cadeias de fornecimento.
A janela de preparação para as novas exigências está se fechando. Embora a adoção tenha contado com um período inicial de aplicação voluntária, o cronograma regulatório aponta para a entrega dos primeiros relatórios completos e comparáveis a partir de 2027, com base em informações estruturadas já nos ciclos anteriores. Um processo consistente de adequação pode levar de dez a treze meses, quando realizado com apoio técnico especializado. Iniciar esse trabalho próximo aos prazos tende a gerar decisões apressadas, aumento de custos e maior risco de inconsistências.
Mesmo empresas que não têm capital aberto já sentem os efeitos desse movimento. Isso ocorre porque companhias listadas dependem de informações de toda a cadeia de valor para cumprir as exigências regulatórias. Fornecedores, prestadores de serviço e parceiros que não conseguem entregar dados sobre consumo de energia, riscos climáticos e controles básicos passam a ser vistos como riscos operacionais e financeiros.
A mudança também afeta diretamente o relacionamento com bancos e seguradoras. Instituições financeiras passaram a incorporar riscos climáticos e de sustentabilidade em seus modelos de análise, influenciando juros, limites de crédito, garantias e apólices de seguro. Empresas sem dados estruturados podem enfrentar custos mais altos, restrições contratuais ou dificuldade para renovar financiamentos.
Outro ponto de atenção é o risco jurídico e reputacional. Empresas que divulgam compromissos ambientais sem respaldo em dados consistentes ficam mais expostas a questionamentos sobre greenwashing, além de possíveis sanções regulatórias.
Com a inclusão do Relatório de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade no conjunto de informações periódicas obrigatórias, a responsabilidade não recai apenas sobre a empresa como pessoa jurídica. Administradores e diretores também podem ser responsabilizados em casos de atraso, omissão ou inconsistência relevante das informações. O descumprimento dos prazos gera multa diária, conforme a Resolução CVM nº 47, podendo ainda resultar na abertura de processos administrativos sancionadores.
O movimento marca uma mudança estrutural no mercado. Sustentabilidade passa a integrar o balanço, o planejamento estratégico e a lógica financeira das empresas. A pergunta central deixa de ser apenas se a empresa adota boas práticas e passa a ser se o modelo de negócios é resiliente diante dos riscos climáticos e regulatórios.
Empresas que se antecipam ganham previsibilidade, reduzem riscos e fortalecem sua posição competitiva. As que deixam para depois tendem a reagir sob pressão, com custos mais altos e menor margem de manobra.
