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A economia circular ganha escala a partir da base da cadeia

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*Por Isabela de Marchi

A chegada de um novo ano, com alterações climáticas cada vez mais evidentes, convida à reflexão sobre os caminhos que o Brasil tem construído para conciliar desenvolvimento econômico, inclusão social e responsabilidade ambiental. Em um cenário marcado por pressões climáticas, desafios fiscais e pela necessidade de aumento de produtividade, a economia circular começa a se afirmar como uma alternativa concreta, não apenas como conceito, mas como um modelo produtivo capaz de gerar resultados mensuráveis.

Depois de um longo período restrita ao debate teórico, a circularidade passa a demonstrar avanços práticos, sobretudo quando direciona investimentos para a base da cadeia, das pessoas que operam a coleta, a triagem e o retorno de materiais ao sistema produtivo. Fortalecer essa base tem se mostrado decisivo para transformar intenções em resultados efetivos.

Iniciativas como Recicleiros e so+ma exemplificam esse movimento. A partir da capacitação de catadores, do fortalecimento da coleta seletiva e do engajamento das comunidades, esses projetos contribuíram para um avanço expressivo da reciclagem em municípios brasileiros. Em um intervalo de 12 meses, o volume de materiais reciclados cresceu 64% nas cidades atendidas, enquanto ações de incentivo ao descarte correto impulsionaram em 31% a coleta de recicláveis. No período, mais de 7,5 mil toneladas de materiais retornaram ao ciclo produtivo, reduzindo a pressão sobre aterros e lixões.

Para além do impacto ambiental, fortalecer a base da cadeia da reciclagem gera ganhos econômicos diretos. Uma estrutura profissionalizada de coleta e triagem reduz perdas, aumenta a qualidade dos materiais recuperados e amplia a previsibilidade no fornecimento de insumos reciclados para a indústria. Em um contexto de volatilidade nos preços de matérias-primas e de maior pressão sobre cadeias globais de suprimentos, a reciclagem estruturada passa a ser também uma estratégia de gestão de risco e eficiência produtiva.

Esses resultados mostram que a economia circular depende diretamente da eficiência e da profissionalização da cadeia de reciclagem. Destaco que investir em capacitação, gestão e infraestrutura na base do sistema reduz riscos operacionais, fortalece a segurança do abastecimento e amplia a competitividade de empresas comprometidas com metas de sustentabilidade e descarbonização.

Ao mesmo tempo, o avanço da circularidade impõe a necessidade de estruturar uma cadeia ética da reciclagem. A ampliação do uso de materiais reciclados exige condições dignas de trabalho, segurança e valorização econômica dos catadores. Sem esse compromisso, os ganhos ambientais perdem consistência e comprometem a sustentabilidade do modelo no médio e longo prazo.

Para as empresas, esse cenário demanda uma mudança de postura. Metas ESG, compromissos climáticos e exigências de investidores passam, cada vez mais, pela capacidade de estruturar cadeias circulares robustas e socialmente responsáveis. Mais do que atender a obrigações ambientais, trata-se de garantir acesso a insumos, reduzir riscos reputacionais e manter competitividade em um mercado que valoriza rastreabilidade e impacto positivo.

A ausência de uma cadeia estruturada impõe custos crescentes à sociedade e à economia. Aterros saturados, desperdício de materiais com valor econômico e sistemas públicos de limpeza urbana pressionados evidenciam que a ineficiência na gestão de resíduos não é apenas um problema ambiental, mas também fiscal e produtivo.

Em 2025, o tema também ganhou espaço no cenário internacional. Pela primeira vez, a economia circular passou a integrar formalmente a agenda da Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas, a COP, e eu estava lá para viver esse feito. A inclusão do tema reflete o entendimento de que reduzir desperdícios, ampliar o reaproveitamento de materiais e fortalecer cadeias de reciclagem são estratégias complementares à transição energética e à redução das emissões de gases de efeito estufa.

A discussão no âmbito da COP reforça que a resposta à crise climática exige transformações estruturais nos padrões de produção e consumo. Mais do que inovação tecnológica, trata-se de redesenhar cadeias produtivas com eficiência econômica, menor intensidade no uso de recursos naturais e inclusão social.

Os resultados observados ao longo de 2025 indicam que essa transformação já está em curso no Brasil, mas seu avanço dependerá de escolhas estratégicas. A ampliação de políticas públicas, a previsibilidade regulatória e o investimento contínuo em capacitação e educação ambiental serão decisivos para escalar a economia circular. Ao avançarmos para 2026, a questão central deixa de ser se a economia circular é viável e passa a ser como acelerar sua implementação, garantindo que eficiência econômica, inclusão social e impacto ambiental caminhem juntos desde a base da cadeia.

*Isabela de Marchi é gerente de Sustentabilidade da SIG

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