Vida Mais Sustentável

Oxfam expõe desigualdade climática e evidencia urgência das compensações

Relatório aponta concentração extrema de emissões entre os mais ricos e reforça a necessidade de regras para dar escala e credibilidade ao mercado de carbono

Um novo relatório da Oxfam voltou a escancarar a desigualdade no centro da crise climática global. Segundo o estudo, nos primeiros dez dias do ano o 1% mais rico da população mundial já havia consumido toda a sua cota justa de emissões de carbono prevista para 2026, considerando o limite de aquecimento de 1,5 °C estabelecido pelo Acordo de Paris.

O dado reacende o debate sobre responsabilidade climática, justiça social e a urgência de mecanismos regulatórios capazes de controlar, precificar e reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A constatação reforça que a crise climática não é resultado do consumo médio da população, mas de um padrão altamente concentrado de emissões.

Para Odair Rodrigues, CEO da B4, primeira bolsa de ação climática do Brasil, o relatório evidencia um problema estrutural. As emissões seguem concentradas entre poucos agentes econômicos, enquanto os instrumentos de controle e compensação avançam de forma lenta e desigual entre países e setores. Segundo ele, tratar todos como igualmente responsáveis distorce a realidade e enfraquece a resposta climática. Sem um mercado de carbono regulado, transparente e confiável, o problema permanece sem correção efetiva.

Estimativas citadas no estudo indicam que as emissões geradas pelo 1% mais rico em apenas um ano podem causar até 1,3 milhão de mortes relacionadas ao calor extremo até o fim do século. Os danos econômicos associados ao consumo excessivo de carbono recaem, principalmente, sobre países de baixa e média renda, com prejuízos que podem chegar a US$ 44 trilhões até 2050.

Nesse contexto, o mercado de carbono regulado surge como um instrumento central para internalizar custos ambientais hoje ignorados, corrigir distorções econômicas e direcionar investimentos para atividades de baixo carbono. Diferentemente de iniciativas voluntárias isoladas, um mercado regulado estabelece critérios obrigatórios de mensuração, verificação independente e limites claros de emissões, criando incentivos econômicos reais para a descarbonização.

Segundo Rodrigues, o ano marca uma virada decisiva. As ferramentas para mensurar emissões já existem, mas, sem regulação, o carbono continua sendo tratado como uma externalidade gratuita. Com regras claras, ele passa a ter preço, responsabilidade e consequência, alterando a lógica econômica dos negócios.

Um dos principais entraves apontados é a fragmentação regulatória, tanto no Brasil quanto no cenário internacional. A ausência de padrões consolidados abre espaço para insegurança jurídica, práticas de greenwashing e perda de credibilidade, fatores que afastam investidores e reduzem o impacto ambiental positivo do mercado. Avanços regulatórios são considerados essenciais para garantir integridade ambiental, rastreabilidade dos créditos e alinhamento com metas climáticas globais.

Dados da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono indicam que o setor pode elevar o crescimento adicional da economia brasileira em quase 6% até 2040 e 8,5% até 2050. Estimativas do Banco Mundial apontam que as emissões de setores regulados poderiam cair 21% até 2040 e 27% até 2050. O preço da tonelada de carbono pode alcançar US$ 30 em uma primeira fase, chegando a US$ 60 em etapas posteriores.

Em novembro, o governo federal sinalizou que pretende publicar todas as normas infralegais necessárias para a adoção do mercado regulado de carbono no Brasil até dezembro de 2026. O relatório da Oxfam reforça que essa agenda vai além da dimensão ambiental. Trata-se também de uma questão econômica e social, capaz de direcionar recursos para mitigação, adaptação climática e desenvolvimento sustentável, especialmente em países do sul global.

Para Rodrigues, sem marcos regulatórios robustos, fiscalização efetiva e integração entre políticas públicas e instrumentos de mercado, a desigualdade de emissões tende a se aprofundar, enquanto a janela para limitar os danos climáticos continua a se fechar.

Em dezembro, a B4 anunciou o início da divulgação diária de boletins sobre a flutuação de preços dos ativos sustentáveis listados em seu ambiente de negociação. A iniciativa busca ampliar a transparência e facilitar o acesso às informações, considerando tanto a dinâmica de oferta e demanda quanto as variações cambiais. Atualmente, a bolsa monitora em tempo real os índices do Programa Brasileiro GHG Protocol, ferramenta criada em 2008 para estimar as emissões de gases de efeito estufa.

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