AVABRUM e especialistas defendem pesquisas como fundamentais para a responsabilização e a transparência sobre os danos
A poucos dias do marco de sete anos da tragédia-crime de Brumadinho (MG), a Vale apresentou recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) que pode limitar a continuidade e os efeitos de estudos científicos conduzidos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O agravo interno pede a revisão de decisões que autorizam pesquisas técnicas em andamento sobre os impactos ambientais, sanitários e socioeconômicos do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão.
Entre os estudos questionados estão análises sobre contaminação do solo, da água e de alimentos, além da avaliação de riscos à saúde das populações atingidas. Produzidas com base em critérios científicos reconhecidos, as pesquisas têm sido utilizadas para subsidiar políticas públicas, decisões judiciais e medidas de proteção coletiva. Para as famílias atingidas, representam acesso à informação qualificada e instrumento essencial para a defesa de direitos.
No recurso apresentado ao STJ, a mineradora sustenta que os estudos não deveriam seguir produzindo efeitos após a homologação do acordo judicial. Caso esse entendimento prevaleça, pesquisas públicas e independentes podem ter seus resultados deslegitimados, reduzindo a visibilidade dos impactos que ainda persistem no território.
Para o diretor do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, Bernardo Campolina, a tentativa de barrar ou limitar os estudos tem caráter protelatório. Segundo ele, impedir a produção e divulgação das pesquisas compromete o entendimento real dos danos. Campolina ressalta que muitos efeitos ambientais, econômicos e sanitários precisam ser analisados no presente, pois, com o passar do tempo, tendem a se diluir e dificultar a responsabilização.
A presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem da Mina Córrego do Feijão (AVABRUM), Nayara Porto, afirma que a iniciativa da empresa revela a tentativa de restringir o acesso à informação. Para ela, os estudos são fundamentais para compreender os impactos sociais e apontar soluções estruturais para as comunidades atingidas.
Dados preliminares apresentados pela UFMG no fim de 2025 indicam que, mesmo com os recursos destinados à reparação, Brumadinho acumulou perdas estruturais significativas. O prejuízo econômico pode chegar a até R$ 5,4 bilhões ao longo de duas décadas. O município passou a apresentar dependência de auxílios financeiros temporários, aumento do custo de vida, retração do comércio local e enfraquecimento do turismo.
Segundo Nayara Porto, sete anos após o rompimento, a cidade ainda convive com efeitos prolongados do desastre. Ela destaca que os auxílios emergenciais são importantes para a sobrevivência imediata das famílias, mas não substituem políticas públicas voltadas ao desenvolvimento econômico, à diversificação produtiva e à reconstrução social do território.
Além das pesquisas científicas, o recurso da Vale também questiona a atuação de assessorias técnicas independentes que acompanham as comunidades atingidas. Para especialistas e entidades de vítimas, a medida representa uma ameaça aos mecanismos de transparência, controle social e fiscalização, considerados essenciais para garantir que a reparação ocorra de forma justa e efetiva.
