Início Noticias Vozes que a lama não calou revelam novas camadas da tragédia-crime de...

Vozes que a lama não calou revelam novas camadas da tragédia-crime de Brumadinho

22
0

Relatos inéditos de sobreviventes e familiares integram a campanha Amanhã pode ser tarde e reforçam a luta por justiça

Mesmo após sete anos de presença constante no debate público nacional, a tragédia-crime de Brumadinho ainda guarda relatos desconhecidos do grande público. Novas narrativas seguem emergindo e revelam camadas pouco visibilizadas do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, ocorrido em 25 de janeiro de 2019, que resultou na morte de 272 pessoas.

São histórias de trabalhadores que escaparam por segundos e de familiares que perderam filhos, irmãos e companheiros. Depoimentos que ajudam a reconstruir não apenas o cotidiano anterior ao crime, mas também a percepção de risco ignorada pela mineradora. Mesmo com o passar dos anos, a dimensão humana da tragédia permanece distante de uma compreensão plena.

Entre os relatos está o de Leandro Borges Cândido, operador de máquinas responsável pelo carregamento dos vagões de minério. No momento do rompimento, ele percebeu a movimentação abrupta da locomotiva e viu vagões serem lançados pela força da lama. Preso dentro da cabine, ficou sem ar e acreditou que morreria. Foi retirado com vida depois que colegas identificaram apenas a ponta de sua cabeça sob os rejeitos. Ao ser resgatado, ouviu a frase que ainda o acompanha: acabou, morreu todo mundo.

A mesma sensação de ruptura marca o depoimento de Sebastião Gomes, funcionário da Vale e estudante de engenharia ambiental à época. Ele relata ter ouvido um estrondo semelhante a uma explosão e sido arrastado dentro de uma caminhonete, cercado por destruição e silêncio. Para ele, sobreviver significou iniciar outra batalha, conviver diariamente com a memória do crime e com a espera por justiça.

Enquanto alguns conseguiram escapar, outros tiveram suas vidas atravessadas por perdas irreparáveis. Carlos Antônio sobreviveu, mas perdeu o filho no rompimento. Ele lembra que ajudou a retirar dezenas de trabalhadores que fugiam do local e afirma que os riscos da barragem eram conhecidos pela empresa. Segundo ele, houve maquiagem das estruturas e negligência consciente quanto às consequências.

As histórias se cruzam em um ponto comum, a convicção de que o crime poderia ter sido evitado e de que a impunidade prolonga o sofrimento das famílias. Desde 2019, a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem da Mina Córrego do Feijão reúne sobreviventes e parentes das vítimas que transformaram o luto em mobilização por memória, responsabilização e não repetição.

Em 2026, quando se completam sete anos do rompimento, a campanha Amanhã pode ser tarde passou a dar visibilidade a relatos inéditos por meio de vídeos em formato documental. A proposta é ouvir onde cada pessoa estava no momento da tragédia e como segue vivendo após o trauma, reforçando o alerta à sociedade sobre gestão de riscos no ambiente de trabalho e a importância da prevenção.

Ao tornar públicos esses depoimentos, a associação reforça que enquanto houver verdades soterradas e responsáveis sem punição, a tragédia permanece em curso. Para Nayara Porto, presidenta da AVABRUM, dar visibilidade a essas narrativas é essencial para romper o silêncio e preservar a memória coletiva. Segundo ela, justiça não deve ser tratada como concessão, mas como direito.

A série também deu origem ao vídeo institucional da associação, com foco na mensagem Justiça Já, ampliando o alcance da campanha e reforçando o compromisso com a responsabilização e a memória das vítimas.

Os depoimentos contam com a participação de Cláudia Duarte, Silvânia de Brito, Nádia Amorim, Leandro Borges, Carlos Antônio, Romero Xavier, Pedro Henrique, Sebastião Celso, Bruna Oliveira e Sebastião Gomes.

Abaixo o nome dos 10 participantes e o link de acesso aos vídeos:

Você pode acessar também a playlist completa da série, clicando aqui.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui