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No Agosto Caramelo, o alerta: maus-tratos contra animais vão além da agressão

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Em Criciúma (SC), ONG Quero Adotar destaca combate ao abandono, negligência e sinais que podem revelar outros ciclos de violência

Nem toda violência contra um animal deixa marcas visíveis. A vasilha sem água, a dor que permanece sem tratamento, o confinamento em um espaço insalubre e o abandono também podem configurar maus-tratos. Durante o Agosto Caramelo, campanha de conscientização voltada à proteção de cães e gatos, a ONG Quero Adotar chama atenção para situações que ainda são naturalizadas e reforça que cuidar de um animal é uma responsabilidade que permanece por toda a vida.

A mobilização vem sendo adotada por órgãos públicos e entidades para ampliar o debate sobre prevenção ao abandono, combate aos maus-tratos, adoção responsável e guarda consciente. No mesmo período, o Agosto Lilás chama atenção para o combate à violência contra a mulher. Os dois temas se aproximam pela chamada Teoria do Elo, que explica a relação entre os maus-tratos aos animais e as agressões contra pessoas vulneráveis, como mulheres, crianças e idosos. A crueldade contra um pet pode não ser um fato isolado, mas um sinal de que existe um agressor violento no ambiente familiar.

Em Santa Catarina, os números ajudam a dimensionar essa violência. Dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP/SC) mostram que o estado registrou 5.630 ocorrências de maus-tratos em 2025. Em 2015, haviam sido 1.312 registros, o que representa crescimento de 329% em dez anos. Só entre os dias 1º e 25 de janeiro de 2026, 371 animais foram identificados como vítimas desse tipo de crime no estado.

Em Criciúma (SC), a ONG Quero Adotar acompanha de perto e trabalha todos os dias contra o abandono e a negligência. Desde outubro de 2024, a organização atua no resgate, acolhimento, tratamento e encaminhamento de gatos para adoção responsável. “Quando um animal chega até uma ONG depois de ser abandonado, o resgate é apenas o primeiro passo. Muitas vezes, ele precisa passar por atendimento veterinário, internação e castração, além de reaprender a confiar até estar preparado para uma nova família. Por trás de cada resgate existe uma longa rede de cuidado”, afirma Laura Coan, advogada e coordenadora da ONG Quero Adotar.

Além da agressão

A Lei Federal 9.605/1998 estabelece, em seu artigo 32, que praticar abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais é crime, e a caracterização não se limita à violência física direta. A Resolução 1.236/2018, do Conselho Federal de Medicina Veterinária, considera maus-tratos qualquer ação ou omissão que, de maneira intencional ou por negligência, imprudência ou imperícia, provoque dor ou sofrimento desnecessário ao animal. Abandonar, negar alimentação ou água, manter o animal em ambiente insalubre, confinado de maneira inadequada ou sem proteção contra as condições climáticas, recusar assistência veterinária e utilizar métodos de punição que provoquem sofrimento também estão entre as situações que podem caracterizar maus-tratos.

Quando o crime é cometido contra um cão ou gato, a Lei 14.064/2020 prevê pena de dois a cinco anos de reclusão, multa e proibição da guarda. Caso ocorra a morte do animal, a pena pode ser aumentada de um sexto a um terço. “Quem assume a guarda de um animal também assume deveres que não desaparecem quando surgem dificuldades financeiras, mudanças de endereço, doenças ou problemas de comportamento. É preciso buscar ajuda e alternativas responsáveis. O abandono não pode ser tratado como uma saída para uma situação que se tornou difícil”, destaca Laura Coan.

Uma das referências internacionais utilizadas para avaliar a qualidade de vida dos animais são as chamadas Cinco Liberdades. Desenvolvido em 1965 e amplamente reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal, o conceito descreve as condições que devem ser asseguradas aos animais mantidos sob responsabilidade humana: liberdade de fome, desnutrição e sede; de medo e angústia; de estresse térmico e desconforto físico; de dor, lesões e doenças; e liberdade para expressar os comportamentos naturais de sua espécie.

O Panorama da Adoção no Brasil – ONGs, divulgado em junho de 2026, identificou que a idade, a aparência e as condições de saúde ainda interferem nas chances de cães e gatos encontrarem uma família. A idade foi apontada como o principal limitador para a adoção por 86% das instituições participantes. Os animais idosos lideram a fila de espera para 59% das entidades, seguidos pelos adultos, citados por 34%. A pelagem preta ou escura também foi identificada como uma barreira por 69% das organizações. Entre os gatos, o preconceito relacionado à FIV e à FeLV foi apontado como barreira à adoção por 75% das organizações pesquisadas, mesmo percentual que relatou maior dificuldade para encontrar famílias para animais com deficiências ou doenças crônicas.

“Um gato adulto não chega sem história, mas isso não significa que tenha menos afeto para oferecer. Muitas vezes, ele já tem a personalidade mais definida, apresenta um comportamento mais tranquilo e consegue criar vínculos muito profundos. O que falta é alguém disposto a enxergá-lo para além da idade, da aparência ou de uma condição de saúde”, reforça Laura Coan.

Desde outubro de 2024, mais de mil gatos foram encaminhados para adoção pela Quero Adotar. Atualmente, a ONG mantém cerca de 50 animais sob sua responsabilidade. “Encaminhar mais de mil gatos para adoção mostra a força da mobilização da comunidade, mas também revela o tamanho da demanda que existe. Por isso, o Agosto Caramelo também precisa ser um momento de falar sobre prevenção, castração e responsabilidade, para que o abandono não continue alimentando esse ciclo”, afirma a coordenadora.

Como ajudar: doações em dinheiro pelo Pix 65.594.556/0001-07. A ONG também recebe ração, areia, sachês, brinquedos e materiais de uso cotidiano. Mais informações pelo WhatsApp (48) 99183-2252 ou pelo perfil @quero.adotar nas redes sociais. Gatos disponíveis para adoção: adocoes.queroadotar.com.

Como denunciar: em Santa Catarina, denúncias de maus-tratos podem ser encaminhadas anonimamente pelo Disque-Denúncia 181, pela Delegacia Virtual de Proteção Animal da Polícia Civil de SC ou, em situações de emergência, pelo 190. Caso os maus-tratos ao animal estejam acompanhados de violência contra uma mulher, acionar o Ligue 180 ou o 190 em emergências.

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