Com o país entre os maiores geradores de e-lixo do mundo, a revenda de aparelhos usados ganha força para prolongar o ciclo de vida dos dispositivos, reduzir resíduos e ampliar o acesso à tecnologia
Celulares, notebooks, televisores, videogames e outros equipamentos eletrônicos fazem parte de uma rotina de consumo cada vez mais acelerada. A troca frequente de dispositivos, impulsionada por lançamentos e pela rápida evolução tecnológica, tem como consequência um aumento expressivo no volume de resíduos gerados.
Segundo o Global E-waste Monitor, relatório elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), o Brasil gera cerca de 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, estando entre os países que mais produzem esse tipo de resíduo no mundo. O levantamento aponta que, globalmente, a geração de e-lixo cresce cinco vezes mais rápido do que a capacidade de reciclagem formal documentada, com projeção de chegar a 82 milhões de toneladas até 2030. Além do impacto ambiental, o descarte prematuro representa uma perda econômica: bilhões de dólares em materiais reaproveitáveis presentes em equipamentos eletrônicos deixam de retornar à cadeia produtiva todos os anos.
Em meio ao aumento do descarte, cresce também um mercado que busca prolongar a vida útil dos dispositivos. A venda de eletrônicos usados e recondicionados deixou de ser uma alternativa restrita a consumidores em busca de preços mais baixos para se consolidar como parte da estratégia de economia circular de empresas e consumidores. Segundo a Counterpoint Research, a América Latina deverá registrar crescimento de 12% nas vendas de smartphones recondicionados em 2026, acima da média global. O segmento já movimenta mais de US$ 4 bilhões na região e cresceu 44% em volume entre 2021 e 2025.
“Ainda existe a percepção de que um equipamento usado perdeu totalmente o seu valor. Na prática, muitos desses produtos ainda têm capacidade de atender outro consumidor ou outra empresa por vários anos. A revenda cria uma ponte entre quem não utiliza mais aquele ativo e quem busca uma alternativa mais acessível”, afirma Thiago da Mata, CEO da plataforma de recomercialização de ativos Kwara.
O avanço desse mercado também acompanha uma mudança na forma como as empresas administram seus ativos tecnológicos. Em vez de manter computadores, notebooks e smartphones armazenados após a renovação, organizações começam a incorporar estratégias de recomercialização como parte da gestão patrimonial e das iniciativas de sustentabilidade. Segundo a base de dados da Kwara, a procura por itens seminovos e recondicionados cresceu 105% entre 2025 e 2026. O volume de produtos revendidos no período evitou a emissão de aproximadamente 7,5 milhões de quilos de CO₂ equivalente, além de reduzir cerca de 1.350 toneladas de resíduos que poderiam ter sido descartados prematuramente.
“Estamos vendo uma mudança de mentalidade. A substituição de um equipamento não significa necessariamente o fim da sua vida útil. Quando esse ativo retorna ao mercado, ele continua gerando valor econômico, amplia o acesso à tecnologia e reduz a pressão sobre a cadeia de produção e descarte”, afirma Da Mata. “A reciclagem continua sendo essencial, mas ela deve entrar quando o aparelho realmente não pode mais ser utilizado. Antes disso, existe um enorme potencial de reúso, recondicionamento e revenda, que preserva o valor dos produtos e reduz significativamente a geração de resíduos”, conclui.
