Vida Mais Sustentável

Hidrogênio verde: oportunidade real ou aposta de longo prazo?

*Por Amure Pinho

Em meio à expansão dos investimentos globais em sustentabilidade, o hidrogênio verde desponta como uma das tecnologias mais promissoras e também mais desafiadoras da transição energética. A expectativa é que ele ajude a reduzir as emissões de setores nos quais a eletrificação direta é mais difícil, como siderurgia, indústria química, fertilizantes e transporte marítimo. Ao mesmo tempo, os altos custos de produção, a infraestrutura ainda limitada e a falta de compradores em escala colocam uma questão central para empresas e investidores: estamos diante de uma oportunidade concreta ou de uma aposta que ainda levará anos para amadurecer?

Os números mostram que existe um mercado real. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda mundial por hidrogênio ultrapassou 100 milhões de toneladas em 2025. Entretanto, praticamente toda essa demanda ainda é atendida por fontes fósseis. A produção de hidrogênio de baixa emissão cresceu cerca de 20% no mesmo ano, chegando perto de 1 milhão de toneladas, mas ainda representa pouco mais de 1% do mercado global. A dimensão dessa diferença revela, ao mesmo tempo, o tamanho do desafio e o potencial de crescimento do setor.

O capital também começa a acompanhar essa expectativa. A IEA estima que os investimentos em projetos de hidrogênio de baixa emissão chegaram a quase US$7 bilhões em 2025, praticamente o dobro do registrado em 2024. A previsão é de que esse volume se aproxime de US$10 bilhões em 2026, com cerca de 70% direcionados à eletrólise, tecnologia utilizada para produzir hidrogênio a partir da água e de eletricidade renovável.

Apesar do avanço, há uma diferença importante entre o volume de projetos anunciados e aqueles efetivamente executados. A estimativa da IEA para o potencial de produção de hidrogênio de baixa emissão anunciado para 2030 caiu de 49 milhões para 37 milhões de toneladas por ano. Cancelamentos e adiamentos atingiram principalmente projetos de eletrólise, enquanto mais da metade da capacidade anunciada dessa tecnologia apresenta previsão de atraso. O principal obstáculo está na demanda: em 2025, novos acordos de compra somaram aproximadamente 1,7 milhão de toneladas por ano, mas apenas cerca de 20% eram compromissos firmes.

Esse cenário mostra por que o hidrogênio verde deve ser analisado como um investimento de longo prazo. Produzir a molécula é apenas uma parte da equação. É necessário garantir energia renovável competitiva, equipamentos, armazenamento, transporte e, sobretudo, consumidores dispostos a pagar pelo produto de menor intensidade de carbono. Sem contratos de compra de longo prazo, muitos projetos não conseguem chegar à decisão final de investimento.

A queda no custo das energias renováveis, entretanto, fortalece a perspectiva de longo prazo. Segundo a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), mais de 90% dos projetos de geração renovável em escala de usina que entraram em operação em 2025 produziram eletricidade a um custo inferior ao da alternativa fóssil mais barata para nova geração nos respectivos mercados. O custo médio global da energia solar fotovoltaica ficou em US$44 por megawatt-hora, enquanto a eólica terrestre chegou a US$33 por megawatt-hora. A eletricidade é justamente um dos principais componentes do custo do hidrogênio verde.

No Brasil, essa equação ganha ainda mais relevância. A combinação de uma matriz elétrica predominantemente renovável, grande potencial solar e eólico, disponibilidade territorial e infraestrutura portuária coloca o país entre os mercados com melhores condições para desenvolver uma cadeia de hidrogênio de baixa emissão. Segundo o Ministério de Minas e Energia, existem mais de US$ 290 bilhões em projetos anunciados no país, distribuídos por 18 estados. O número, porém, representa projetos anunciados e não necessariamente investimentos já realizados.

O Ceará é um dos principais exemplos dessa movimentação. O Complexo Industrial e Portuário do Pecém tornou-se um dos polos mais avançados do país, com projetos de produção de hidrogênio e derivados voltados tanto ao mercado nacional quanto à exportação. O governo estadual estima mais de R$131 bilhões em investimentos associados ao hub e cerca de 80 mil empregos diretos e indiretos. Entre os empreendimentos está um projeto da Fortescue, estimado em R$18 bilhões, além de uma iniciativa da Casa dos Ventos com a TotalEnergies, com investimentos superiores a R$12 bilhões para produção de amônia verde.

O potencial brasileiro, porém, não está apenas na exportação de hidrogênio ou amônia. A oportunidade pode estar na utilização dessa energia para produzir bens industriais de menor intensidade de carbono, como aço, fertilizantes, combustíveis sustentáveis e produtos químicos.

O marco regulatório brasileiro também avançou. A Lei nº 14.948, de 2024, estabeleceu o marco legal do hidrogênio de baixa emissão de carbono, enquanto a Lei nº 14.990 criou um programa específico para estimular o desenvolvimento do setor. O governo prevê R$18,3 bilhões em benefícios fiscais ao longo de cinco anos. Paralelamente, o BNDES e outros agentes públicos vêm ampliando o financiamento de iniciativas relacionadas à transição energética e à economia de baixo carbono.

Ainda assim, os riscos não podem ser ignorados. O hidrogênio verde continua mais caro do que alternativas convencionais em muitos mercados, depende de infraestrutura que ainda está sendo construída e está sujeito a mudanças regulatórias e tecnológicas. Ademais, a própria IEA aponta que o financiamento de empresas de hidrogênio por venture capital caiu cerca de um terço em 2024, sinal de que o entusiasmo inicial do mercado financeiro passou a conviver com uma avaliação mais rigorosa sobre riscos e retornos.

A conclusão, portanto, não está em classificar o hidrogênio verde simplesmente como oportunidade ou aposta. Ele já representa uma oportunidade real, mas sua maior dimensão econômica provavelmente será construída ao longo da próxima década. Para investidores, mais importante do que observar o volume de anúncios é identificar quais projetos possuem energia competitiva, compradores definidos, infraestrutura adequada, financiamento estruturado e segurança regulatória.

*Amure Pinho é empreendedor há mais de 20 anos, já foi presidente da Associação Brasileira de Startups (Abstartups), é investidor-anjo em mais de 51 startups e fundador do Investidores.vc, plataforma de investimento em startups que já investiu mais de R$35 milhões nos últimos anos

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