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Comunidades amazônicas já relatam redução de rios e perdas na produção diante do risco de novo El Niño

Foto: Rodolfo Pongelupe

FAS lança aliança para antecipar impactos em 2026 e 2027 e articular ações de adaptação antes que situações de vulnerabilidade se transformem em novas emergências

Redução do volume de rios, lagos, igarapés e poços, aquecimento das águas, dificuldades de deslocamento, perdas na pesca e nas plantações e aumento do risco de queimadas já são relatados por comunidades amazônicas. Para antecipar os impactos de um possível El Niño e fortalecer a preparação dos territórios, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) lançou, na terça-feira, 1º de setembro de 2026, a Aliança Adaptação El Niño 2026-27: agir antes da emergência.

O lançamento ocorreu durante edição extraordinária do 41º Encontro de Lideranças Representantes de Associações dos Territórios de Atuação da FAS, realizado de forma on-line com cerca de 100 participantes para identificar mudanças já percebidas nos territórios, principais vulnerabilidades e medidas necessárias para reduzir os impactos de novos eventos climáticos extremos.

“As mudanças do clima para a gente estão absurdas. Em 15 dias, tínhamos uns 20 metros de água e agora não temos mais acesso. A maniva está murchando e queimando. Estamos sem saber o que fazer em relação à seca. Neste período, já precisamos percorrer três quilômetros para chegar à praia”, relata Alcione Rodrigues, morador da Comunidade Nossa Senhora de Fátima, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá.

A Aliança terá como foco o monitoramento das condições ambientais e climáticas, a identificação dos territórios mais vulneráveis e a mobilização de recursos e parceiros para ações de prevenção, adaptação e resposta. “Essa aliança nasce da experiência que acumulamos em outros momentos de crise, como a pandemia, as grandes cheias e as secas de 2023 e 2024. Agora, diante do risco de um novo El Niño, queremos reunir associações indígenas, quilombolas, ribeirinhas, organizações e parceiros para agir de forma conjunta. O espírito é esse: todo mundo remando junto para enfrentar os impactos e construir respostas para as comunidades”, afirma Virgilio Viana, superintendente-geral da FAS.

A iniciativa parte dos aprendizados das secas históricas enfrentadas pela Amazônia em 2023 e 2024, quando comunidades tiveram dificuldades de acesso à água potável, alimentos, serviços de saúde, educação e transporte. “Nossa maior dificuldade é a água potável. Desde 2023, temos passado por momentos difíceis. Em 2024, sofremos uma seca extrema e nosso maior medo de 2026 é que isso se repita. A água não estava sendo captada pelos poços, e essa foi uma das maiores dificuldades”, relata Kelly Regina, da Comunidade Santa Rita do Uarumã, na RDS Piagaçu-Purus.

Em 2023, a FAS iniciou uma mobilização coletiva para responder aos efeitos da seca, a Aliança Adaptação Climática, que reuniu o apoio de 80 organizações socioambientais e alcançou 12.068 pessoas no Amazonas. A preparação também parte de soluções já implementadas nos territórios: ações de acesso à água potável já beneficiaram 7.185 pessoas; 43 toneladas de alimentos foram mobilizadas para comunidades tradicionais; e está prevista a contratação de 153 brigadistas em 2026, pelo Programa Floresta em Pé, para reforçar a prevenção e o combate aos incêndios florestais no Amazonas.

Durante o encontro, as lideranças apontaram como prioridades a construção e adequação de poços artesianos, instalação de sistemas de energia solar para abastecimento de água, transporte para pacientes e estudantes, formação de brigadistas, fortalecimento da segurança alimentar e elaboração de planos comunitários de adaptação.

“Quem vive nos territórios percebe primeiro as mudanças e também conhece as soluções que podem funcionar em cada realidade. A FAS está ao lado das comunidades para ouvir, organizar essas demandas e buscar caminhos com parceiros. Nem todas as respostas dependem apenas de nós, mas toda ação precisa começar pela escuta e pela participação das pessoas diretamente afetadas”, afirma Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS.

Como parte da estratégia da Aliança, está sendo desenvolvido um aplicativo para registrar demandas territoriais relacionadas aos impactos do El Niño na Amazônia Legal. A ferramenta deverá permitir a sistematização das informações compartilhadas pelas lideranças, apoiar a identificação dos territórios mais vulneráveis e orientar a mobilização de parceiros, recursos e ações.

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