Criado em 2025, o instituto apoia iniciativas de natureza e meio ambiente, educação, saúde integral e artes; entre os projetos apoiados estão uma comunidade terapêutica em Santa Catarina e uma escola de formação de atores no interior de São Paulo
Em Mafra (SC), Edson Eckel via a fiscalização notificar, mais uma vez, que sua comunidade terapêutica para adultos em situação de dependência de álcool, drogas e outras compulsões precisava adequar sua estrutura e capacidade de atendimento para cumprir as exigências relacionadas ao convênio federal. Faltava estrutura para acolher mais gente e, se a situação não mudasse, corria o risco de perder o financiamento que sustenta metade das vagas da instituição.
A quase 500 quilômetros dali, em São Francisco Xavier, distrito paulista de cerca de quatro mil habitantes, Juliano Barone fazia constantemente um trajeto de quatro horas de ônibus até São Paulo para conseguir trabalhos extras que pagassem as contas do espaço cultural voltado à formação artística de crianças e jovens que mantinha sozinho. As economias acabaram, e ele pegou um empréstimo pessoal para não fechar as portas. Chegou a avisar a própria equipe que aquele poderia ser o último ano do projeto.
Duas histórias, dois estados, dois públicos diferentes. O que têm em comum? Ambos receberam aporte do Vivero, fundo brasileiro de investimentos regenerativos, e encontraram nos recursos e no acompanhamento do instituto novas possibilidades para ampliar e dar continuidade ao impacto que já produziam em suas comunidades.
A história da instituição que viria a se tornar a Associação Terapêutica Novo Amanhecer (Atena) começou em 2002. Em 2005, após uma reformulação conduzida por Edson Eckel, passou a adotar o nome Atena e a estrutura que originou o trabalho atual. Naquele período, Edson também reconstruiu a própria trajetória após concluir seu tratamento contra a dependência de álcool e drogas. O modelo que ele construiu ao longo de mais de duas décadas se apoia menos na palavra internação e mais no conceito de acolhimento: um modelo residencial, transitório e voluntário, em que a pessoa avança por fases de autonomia crescente até estar pronta para retomar a própria vida.
Hoje, a Atena mantém duas unidades: a masculina, com 43 vagas, e a feminina, ampliada recentemente para até 30 pessoas. Juntas, atendem desde pessoas de baixa renda até a classe média, de moradores em situação de rua a pacientes em tratamento de vício em jogos e apostas online.
A instituição também enfrentava um desafio financeiro: os convênios públicos cobrem parte do atendimento, mas os recursos precisam sustentar uma estrutura que envolve acolhimento, alimentação, equipe e manutenção. Edson estima em cerca de R$ 1,3 mil o custo mensal por pessoa acolhida. Sem capacidade de ampliar a estrutura física, a Atena corria o risco de perder o convênio federal por não conseguir ocupar o número mínimo de leitos exigido pela fiscalização.
Com o investimento do Vivero, a Atena construiu 340 m² de área nova: ala administrativa, ambulatório, banheiros sociais, que antes não existiam para as mulheres, e um banheiro adaptado para cadeirantes. Em agosto de 2026, a instituição já registrava mais de duas mil pessoas acolhidas desde o início de sua trajetória. Para Edson, porém, o impacto não se resume à quantidade de pessoas, mas às relações familiares, sociais e profissionais que podem ser reconstruídas.
“A gente quer devolver ao mundo um cidadão e quando eu escuto de pessoas que ainda nem terminaram o tratamento o quanto o projeto mudou a vida delas, esse é um combustível para que eu continue nesta missão. Além do recurso financeiro, que é importante para mantermos o projeto, o Vivero nos apoiou com mentorias que mudaram a nossa mentalidade sobre gestão e profissionalização e isso faz toda a diferença para evoluirmos”, conta Edson Eckel, fundador da Atena.
Em São Francisco Xavier (SP), o percurso começa em 2006, quando Juliano Barone funda a Educato, núcleo que une produção, arte e educação. Quase uma década atrás, após um período de esgotamento pessoal, ele decidiu se mudar para o pequeno distrito sem conhecer ninguém e sem carro, com a intenção inicial de dar apenas algumas aulas nos fins de semana.
“O que me fez ficar foi uma constatação simples, ouvida direto dos próprios jovens: adolescentes de 14 a 24 anos reclamavam por não ter nenhum espaço de formação artística na região. Quem tinha recursos financeiros ia embora estudar ou trabalhar em outro lugar; quem não tinha ficava exposto a um mercado de trabalho turístico muitas vezes precário, com baixos salários. Foi para responder a esse cenário que nasceu o que hoje é a Associação Cultural Canto do Colibri, uma escola de formação de atores (única na região), com biblioteca, teatro e aulas de música, dança e canto, com programação cultural ativa o ano inteiro”, explica Juliano Barone, fundador do Colibri.
Mesmo com essa relevância, o projeto nunca se sustentou sozinho. Juliano bancava do próprio bolso, contraiu empréstimo pessoal e chegou a avisar a equipe de que talvez precisasse encerrar as atividades. O aporte do Vivero, somado à capacitação da aceleradora Global para todo o time, permitiu não apenas fôlego financeiro, mas a formalização da associação e o início da preparação para captação de recursos, inclusive por meio da Lei Rouanet.
Os números impressionam para o tamanho do distrito: de 100 a 200 alunos por semestre em cursos livres e técnicos, e uma Virada Cultural anual, já na quarta edição, que reuniu cerca de 1.200 pessoas em nove dias, com entrada gratuita. O mais notável é que o projeto hoje é gerido, majoritariamente, por ex-alunos, que começaram como estudantes de teatro e hoje coordenam a escola, a produção e a própria associação.
Entre eles está Penelope Serena. Ainda adolescente, durante uma palestra de Juliano em uma escola da região, ela levantou a mão e disse que queria ser atriz, mas não enxergava como seguir essa carreira permanecendo em São Francisco Xavier. A inquietação foi uma das motivações para a criação da escola de formação de atores. Anos depois, Penelope passou a integrar o Colibri como professora, produtora e uma das profissionais envolvidas na gestão do projeto.
Criado em 2025 por Eugenio Pachelle, fundador da Eduzz, comunidade com soluções 360 voltadas a empreendedores digitais, o Vivero utiliza diferentes instrumentos conforme a natureza de cada iniciativa. Para projetos sociais e ONGs, o instituto pode realizar doações, com metas e indicadores definidos. Na frente de negócios, trabalha com crédito corrigido por IPCA ou CDI e investimentos com participação societária. Em artes, atua ainda com recursos, produção, distribuição e construção de comunidades.
Os lucros da Eduzz que caberiam ao fundador são integralmente destinados ao instituto, que direciona os recursos para iniciativas de regeneração. A lógica vai além de reservar pontualmente uma parcela do lucro para causas sociais: o resultado da participação alimenta o fundo e amplia sua capacidade de apoiar novos projetos.
O modelo encontra poucos paralelos no mundo. Em levantamento do próprio instituto sobre estruturas semelhantes, foram identificados precedentes internacionais como Carl Zeiss Stiftung, Rolex, Newman’s Own, Humanitix e Patagonia, cada um com modelos e características próprias.
O fundo também atua no desenvolvimento dos projetos apoiados por meio de trilhas de educação e mentorias, apoio à estrutura administrativa, comunidade e conexões, buscando fortalecer as iniciativas até que alcancem autonomia.
“Uma empresa pode ser medida pelo que vende, pelo que ela cresce e pelo que constrói. Mas existe outra pergunta que sempre nos interessou: o que pode acontecer por causa dela? O Vivero hoje sustenta projetos de natureza, educação, saúde integral e artes por todo o Brasil. São histórias diferentes, com origens diferentes, mas que caminham na mesma direção: entender que resultado também é o que se transforma fora do negócio”, afirma Eugenio Pachelle.
