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Do ouro negro à energia limpa: o mundo que quer mudar, mas ainda não decidiu para onde vai

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*Por Fabio Ongaro

Durante mais de um século, o petróleo foi o motor oculto da civilização moderna. Chamado de ouro negro, sustentou guerras, ergueu impérios, moldou fronteiras e financiou o avanço do consumo que transformou o planeta. Hoje vive seu momento mais paradoxal. O mundo diz querer se libertar dele, mas não consegue. As narrativas apontam para o futuro, as estruturas insistem no passado.

Nada simbolizou essa contradição com mais precisão do que o que ocorreu durante a COP-30. Em meio a discursos inflamados sobre neutralidade de carbono e compromissos climáticos, o Brasil anunciou a descoberta de uma promissora reserva no pós-sal. Foi como se a geologia tivesse feito uma piada de timing perfeito. Enquanto líderes defendiam o fim dos combustíveis fósseis, o subsolo brasileiro respondia com barris e mais barris de petróleo de alta qualidade.

A natureza, às vezes, tem senso de humor. E lembrou ao mundo que a transição energética não acontece por decreto.

Metas não movem turbinas, energia disponível sim

O maior obstáculo da transição é a distância entre ambição e realidade. O planeta exige energia limpa, mas consome energia fóssil. Quer independência tecnológica, mas depende de cadeias mineradoras complexas. Prega sustentabilidade, mas precisa de crescimento.

A matriz atual não tem substituto imediato. Solar e eólica avançam, mas são intermitentes. Baterias evoluem, mas dependem de minerais escassos controlados por poucos países. Hidrogênio verde ainda é caro. E economias emergentes querem produzir, viajar e consumir mais justo no momento em que o planeta tenta reduzir a pegada de carbono.

Por isso, países que defendem a transição com entusiasmo seguem financiando gasodutos, ampliando reservas, reforçando capacidade de refino e mantendo o petróleo como garantia de estabilidade. A descoberta do pós-sal durante a COP-30 só escancarou essa incoerência global. O mundo critica o petróleo em público e depende dele em privado.

A disputa não é ambiental, é estratégica. O petróleo dominou o século vinte. A tecnologia energética dominará o século vinte e um. O poder mudará para quem controlar três pilares decisivos:

  1. Tecnologias energéticas — baterias, redes inteligentes, semicondutores, sistemas de IA aplicados à eficiência;
  2. Minerais críticos — lítio, cobalto, níquel, terras raras;
  3. Financiamento de infraestrutura verde — capital capaz de escalar a transição.

A China entendeu isso antes de todos. Construiu a cadeia completa de baterias, da mina ao carro elétrico, e transformou sua manufatura verde em vantagem geopolítica. Os Estados Unidos reagem com subsídios trilionários e reindustrialização. A Europa tenta proteger sua autonomia estratégica. A Ásia amplia sua influência.

Enquanto isso, muitos países produtores de petróleo vivem uma ambivalência desconfortável. Querem liderar a transição, mas não podem abandonar sua principal fonte de receita. O Brasil não foge à regra.

O Brasil entre dois mundos: potência energética, anão industrial

Poucos países têm a combinação brasileira. Matriz elétrica majoritariamente limpa, abundância de fontes renováveis, biomassa competitiva, potencial para hidrogênio barato e reservas expressivas de minerais estratégicos. Agora soma-se uma nova fronteira pós-sal que amplia ainda mais o portfólio energético.

Mas o país permanece preso a um dilema estrutural. É um gigante energético e um anão industrial. Tem energia limpa, mas importa tecnologia. Tem lítio, mas não domina baterias. Tem vento e sol, mas não lidera a manufatura verde.

A descoberta anunciada durante a COP-30 reforçou essa ambiguidade. De um lado, fortalece o Brasil como produtor confiável. De outro, revela a dependência crônica de commodities num momento em que o país deveria usar esse capital energético para construir cadeias industriais de maior valor agregado.

O Brasil poderia ser o hub verde do hemisfério sul. Mas isso exige três coisas raras na política nacional: estabilidade regulatória, visão de longo prazo e estratégia geoeconômica.

A transição é inevitável, mas não será gentil

O mundo já entendeu que a transição energética é inevitável. Mas não será suave. Será dura, desigual, cara e profundamente política. A ironia da reserva encontrada durante a conferência climática é apenas um lembrete. A humanidade está atrasada em relação à narrativa que criou para si.

O erro global não é depender do petróleo. O erro é depender dele sem construir o que virá depois. A energia definirá competitividade, soberania e poder nas próximas décadas. Quem dominar o novo ecossistema energético comandará o jogo. Quem não dominar seguirá reagindo.

Até lá, descobertas como a do pós-sal continuarão surgindo, provavelmente nos momentos mais inconvenientes. A geologia não participa de assembleias, não faz discursos, não assume compromissos. Ela simplesmente existe e obriga o mundo a encarar a realidade antes de celebrar o futuro.

*Fabio Ongaro é economista e empresário no Brasil, CEO da Energy Group e vice-presidente de finanças da Câmara Italiana do Comércio de São Paulo Italcam

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