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Aquecimento global já ameaça aves mesmo em áreas preservadas

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Foto: Silvia Faustino Linhares

Especialista da SAVE Brasil alerta que crise climática pressiona fauna e exige ações além da proteção da mata

O aumento das temperaturas no Brasil já provoca impactos profundos sobre espécies de aves que vivem nas maiores florestas do país, inclusive em áreas oficialmente protegidas. O alerta é do biólogo Pedro Develey, diretor da SAVE Brasil, organização dedicada à conservação das aves e de seus habitats. Segundo ele, a crise climática deixou de ser uma projeção futura e já altera o equilíbrio das populações silvestres.

O cenário brasileiro acompanha uma tendência global. De acordo com a atualização mais recente da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, divulgada em outubro de 2025, 61% das espécies de aves do mundo apresentam populações em declínio, impulsionadas principalmente pela perda de habitat e pelo aumento das temperaturas. No Brasil, 138 espécies já são classificadas oficialmente como ameaçadas, segundo dados da BirdLife International.

Para Develey, apenas proteger a floresta não será suficiente. Ele explica que o aquecimento afeta diretamente a base alimentar das aves, especialmente os insetos. Com menos alimento disponível, a taxa de reprodução cai e as populações entram em declínio. Mesmo em áreas preservadas, esse efeito já é observado, o que indica um desequilíbrio ambiental em curso.

Na Amazônia, um exemplo emblemático é o papa-formiga-de-topete, ave que depende do deslocamento de formigas de correição para capturar insetos. Com a redução desses insetos provocada pelo calor excessivo, a dinâmica alimentar da espécie é comprometida, mesmo em regiões onde a floresta permanece intacta.

A situação é ainda mais crítica na Mata Atlântica. O crejoá, ave de plumagem vibrante e considerada uma das mais belas do país, pode desaparecer completamente se o aquecimento global continuar no ritmo atual. Segundo o biólogo, um aumento de 5 °C pode levar à perda de 100% da área de distribuição da espécie, que não apresenta capacidade de adaptação rápida às mudanças ambientais. Alterações na estrutura da vegetação, provocadas pelo aumento da temperatura, tornam o habitat inviável.

Espécies com distribuição extremamente restrita também enfrentam riscos elevados. O bicudinho-do-brejo-paulista, presente atualmente em apenas seis municípios do estado de São Paulo, sofre com a combinação entre fragmentação de habitat e clima mais quente, um exemplo de como pequenos distúrbios ambientais podem comprometer populações inteiras.

Essas observações são reforçadas por estudos científicos recentes. Uma pesquisa publicada em 2025 por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro analisou mais de 20 mil modelagens de distribuição de espécies e concluiu que, se o aquecimento global continuar no ritmo atual, mais de 90% das espécies brasileiras sofrerão efeitos negativos das mudanças climáticas. Aproximadamente 25% correm risco de extinção por perda de habitat climático, quando o ambiente deixa de oferecer condições mínimas para a sobrevivência.

O estudo também aponta caminhos para reduzir esses impactos. Caso o aquecimento global seja limitado entre 1,5 °C e 2 °C, conforme previsto no Acordo de Paris, o número de espécies ameaçadas pode cair pela metade. Estratégias como ampliação e conexão de áreas protegidas, reflorestamento e envolvimento de comunidades tradicionais são consideradas essenciais para aumentar a resiliência dos ecossistemas.

Para os especialistas, os sinais emitidos pelas aves revelam uma dimensão ainda pouco percebida da crise climática. Mesmo florestas preservadas já apresentam sinais de desequilíbrio, indicando que a conservação baseada apenas na proteção territorial não será suficiente. A adaptação exige manejo ativo, corredores ecológicos e ações integradas que fortaleçam a capacidade de resposta das espécies.

Segundo Develey, as aves funcionam como indicadores precoces das mudanças em curso. Ao reagirem rapidamente às alterações climáticas, elas mostram o que pode acontecer em escala maior se as ações de mitigação e adaptação não forem aceleradas.

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