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Docente da Unesp ressalta descompasso entre ambições diplomáticas do Brasil e falhas na governança de desastres climáticos

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Corpo de Bombeiros, Políciais e voluntários continuam resgatando animais e levando mantimentos para as pessoas atingidas pela enchente em Porto Alegre | Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Em entrevista ao Jornal da Unesp, professor comenta texto publicado na revista Nature Waters e apresenta propostas para aperfeiçoar integração e coordenação das ações destinadas à prevenção dos impactos causados por eventos como as fortes chuvas que assolaram algumas partes do país nos últimos anos

Um artigo de opinião escrito pelo professor da Unesp Enner Alcântara e publicado no último dia 22 de setembro na revista Nature Waters discute como o despreparo do Brasil diante dos recentes eventos extremos hidroclimáticos – e as perdas humanas e materiais decorrentes dessa limitação – podem minar a credibilidade do país e prejudicar sua ambição de liderar o debate climático global. Essa ambição, aliás, viverá um momento decisivo por ocasião da COP30, que se iniciará em 10 de novembro em Belém, no Pará, e que tem sido objeto de sérias dificuldades organizacionais para o governo brasileiro. Alcântara estará na COP30 à convite do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), integrando uma mesa redonda sobre Sistemas de Alertas para Ameaças Múltiplas que será parte de uma sessão sobre desastres climáticos.

No texto, o professor do Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais, no câmpus de São José dos Campos, cita as tragédias ocorridas nos últimos três anos em Petrópolis (RJ), São Sebastião (SP) e Porto Alegre (RS) como exemplos de falhas do país na governança de desastres e da incapacidade política de estabelecer políticas que estimulem ações preventivas. A questão, aponta o pesquisador, não é técnica, uma vez que o Brasil dispõe de instituições e instrumentos para orientar essa gestão do risco. “O que ocorre é que esse conhecimento raramente chega ao planejamento urbano, ao licenciamento de obras e à manutenção de infraestruturas críticas”, afirma. Neste cenário, resta o investimento tardio em medidas de socorro e reconstrução após as tragédias, um padrão observado nas três tragédias mencionadas pelo docente.

Segundo o autor do artigo, essa preparação insuficiente diante do crescente risco de eventos extremos ameaça não apenas a resiliência doméstica do Brasil, mas também sua credibilidade internacional como líder climático. “A COP30 pode ser a oportunidade de o país mostrar coerência entre sua liderança internacional e sua prática interna, estabelecendo compromissos claros de adaptação que beneficiem diretamente as comunidades mais vulneráveis”, afirma.

Em entrevista ao Jornal da Unesp, Alcântara aponta as falhas na governança dos desastres climáticos e sugere caminhos para tornar esse processo integrado e mais eficiente, além de expor suas expectativas para a COP30.

O senhor pontua, na carta publicada na Nature Water, que o protagonismo do Brasil na organização da COP30 ocorre em paralelo ao despreparo do país em responder aos últimos eventos extremos hidroclimáticos. Como enxerga essa contradição?

Alcântara: Sim, existe uma incoerência. O Brasil assumirá a liderança mundial no debate climático com a realização da COP30 em Belém, mas internamente continua repetindo falhas históricas de prevenção e adaptação. Isso ficou evidente em eventos recentes, como as tragédias de Petrópolis, São Sebastião e Porto Alegre, onde previsões e alertas existiam, mas não se traduziram em ações eficazes. A implicação é dupla: de um lado, perdemos vidas, infraestrutura e recursos em desastres que poderiam ter impactos menores com planejamento adequado; de outro, enfraquecemos nossa credibilidade internacional. Um país que pretende liderar a diplomacia climática precisa mostrar coerência entre discurso e prática, especialmente no cuidado com suas populações mais vulneráveis.

Um ponto levantado no texto é que essa deficiência não ocorre por falta de capacidade científica, uma vez que o Brasil dispõe de instituições e instrumentos qualificados para amparar as respostas a esses eventos. Quais são as orientações da ciência que não têm sido incorporadas pelos tomadores de decisão?

Alcântara: De fato, não é por falta de ciência. O Brasil conta com instituições como o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e diversas universidades públicas que produzem previsões, cenários climáticos e mapas de risco de alta qualidade. O que ocorre é que esse conhecimento raramente chega ao planejamento urbano, ao licenciamento de obras e à manutenção de infraestruturas críticas, como diques, bombas de drenagem e sistemas de contenção. A ciência já orienta, por exemplo, a necessidade de evitar ocupações em áreas suscetíveis a deslizamentos e enchentes, de modernizar obras de proteção considerando cenários de extremos mais intensos, de incorporar projeções climáticas nos planos diretores das cidades e de fortalecer protocolos de resposta a partir dos alertas que já existem. Em resumo, não faltam dados ou diagnósticos, mas sim a disposição política de transformar esse conhecimento consolidado em políticas públicas eficazes e preventivas.

O que falta é mudar a lógica de atuação. Hoje o país continua concentrando recursos e energia na resposta às emergências, quando vidas já foram perdidas e o prejuízo é irreversível. As três tragédias anteriores mostraram que a previsão científica existia, mas não houve planejamento urbano, manutenção de diques ou protocolos de evacuação capazes de evitar o pior. Preparar-se adequadamente significa investir antes: modernizar infraestruturas críticas, impedir a ocupação de áreas de risco, fortalecer a capacidade municipal de agir de forma rápida e coordenada e integrar projeções climáticas aos planos diretores. Isso não depende apenas de tecnologia, mas principalmente de vontade política e de uma governança que priorize a prevenção e a adaptação, em vez de continuar apostando apenas no socorro e na reconstrução depois do desastre.

A governança de extremos hidroclimáticos está diretamente relacionada ao processo de adaptação às mudanças climáticas, um tema prioritário na agenda da COP30. No seu ponto de vista, qual seria um resultado positivo para a COP30 no tema da adaptação?

Alcântara: Um resultado positivo da COP30 seria ver a adaptação ganhar o mesmo peso que a mitigação, ou seja, reconhecer que reduzir emissões é fundamental, mas que proteger as populações já expostas aos extremos climáticos é igualmente urgente. No caso do Brasil, isso significaria comprometer-se com políticas concretas, como incorporar cenários climáticos aos planos de desenvolvimento urbano e regional, priorizar investimentos em obras de contenção e drenagem baseadas em ciência e natureza, e criar mecanismos de financiamento que permitam que municípios se preparem antes do desastre.

A COP30 pode ser a oportunidade de o país mostrar coerência entre sua liderança internacional e sua prática interna, estabelecendo compromissos claros de adaptação que beneficiem diretamente as comunidades mais vulneráveis. Não basta defender ações climáticas no cenário internacional, é preciso provar que também está preparado internamente para enfrentar enchentes, secas e deslizamentos. Um resultado positivo seria o país assumir compromissos claros de adaptação, com investimentos em infraestrutura resiliente e proteção das populações mais vulneráveis. Isso daria credibilidade ao nosso protagonismo global.

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