*Por Henrique Pereira
Quando falamos em mercados de carbono, nem sempre fica claro que esses mecanismos não alteram, por si só, a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera: é o preço do carbono que induz a redução das emissões, ao internalizar um custo econômico e alterar decisões de investimento do setor privado, como bem pontuado por Caroline Prolo e Shigueo Watanabe Jr. em artigo. Esse racional mostra que a precificação de carbono é um tema que transcende o escopo ambiental e pode ter implicações na dinâmica econômica global.
Em essência, a adoção de um instrumento de precificação, sejam taxas ou mercados, tem como objetivo central acelerar a descarbonização das economias. São instrumentos acessórios, que em combinação com outras políticas e instrumentos de não-mercado, contribuem para que os compromissos assumidos pelos países em suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) sejam efetivamente atingidos.
A preferência por mercados surge a partir de um argumento de custo-efetividade. Um sistema de comércio de emissões contribui para que as atividades de redução mais custo-efetivas, ou seja, mais baratas sejam atingidas primeiro, permitindo que a economia avance e se prepare para lidar com custos de abatimentos mais altos no futuro. Adicionalmente, essa opção regulatória tende a favorecer uma maior integração com outras iniciativas internacionais, permitindo a interoperabilidade de diferentes sistemas de comércio de emissão, e minimizando riscos de perda de competitividade do setor produtivo ao induzir investimentos em inovação.
A edição 2025 do estudo State and Trends of Carbon Pricing, recém-lançado pelo Banco Mundial, traz dados pertinentes sobre como o tema tem avançado no mundo. A publicação aponta que economias que representam quase dois terços da produção econômica global já implementaram taxas sobre o carbono ou um sistema de comércio de emissões (ETS), e que cerca de 28% das emissões globais já estão cobertas por um instrumento de precificação de carbono.
O relatório mostra ainda que o preço médio do carbono quase duplicou nos ambientes regulados nos últimos 10 anos, passando de cerca de USD10.00 por tCO 2 e em 2015 para aproximadamente USD 19.00 em 2025. Há, contudo, grande heterogeneidade de preços entre mercados. O mercado europeu, por exemplo, vem apresentando preços superiores a EUR 60.00 em 2025, com picos de EUR 83.00 em janeiro deste ano. No entanto, os preços médios atuais permanecem abaixo dos níveis necessários para transformações estruturais da economia.
Entre as razões para preços ainda baixos estão (i) o excesso de oferta em alguns sistemas de comércio de emissão devido à desaceleração econômica, (ii) custos marginais de abatimento baixo em sistemas nascentes já que no início da operação dos mercados há ampla oportunidade de investimentos de descarbonização custo- efetivos e (iii) incertezas regulatórias e geopolíticas, destacando-se o vazio legal para um mecanismo internacional de precificação carbono por mais de uma década, e os crescentes conflitos e instabilidades regionais que acabam mudando o foco e a prioridade dos governos nacionais, principalmente na Europa.
As revisões das NDCs e o Global Stocktake (GST) em curso criam as bases para maiores ambições dos países e a aceleração da adoção de mecanismos de precificação em escala global. Por sua vez, um entendimento das implicações estratégicas da precificação de carbono para os negócios é fundamental. Estamos observando um momento de inflexão importante que alterará a gestão de risco e a operação das empresas no qual as oportunidades de inovação e adoção tecnológica serão chave para o êxito dos negócios. Por se tratar de um tema com implicações amplas, a precificação de carbono deve ser abordada de maneira integrada aos elementos de planejamento e execução estratégica, pautando decisões de investimento e as transformações competitivas necessárias à efetiva transição para uma economia de baixo carbono.
*Henrique Pereira é cofundador e COO da WayCarbon








