Início Noticias Estudo científico identifica microplástico em 70% das amostras de frutos do mar...

Estudo científico identifica microplástico em 70% das amostras de frutos do mar no litoral brasileiro

52
0

Instituto Voz dos Oceanos e USP apontam concentrações mais elevadas em Recife e Fortaleza

A presença de resíduos plásticos tornou-se um problema global urgente. Eles se acumulam em ecossistemas diversos, têm alta durabilidade e se fragmentam em partículas menores que cinco milímetros, que são ingeridas por animais marinhos e retornam aos seres humanos pela cadeia alimentar.

Para dimensionar o impacto, o Instituto Voz dos Oceanos, em parceria com a Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano e o Centro de Referência para Quantificação e Tipificação do Lixo do Mar (CeLMar – CNPq) da Universidade de São Paulo (USP), realizou o primeiro estudo científico que identifica a contaminação por microplásticos em bivalves amplamente comercializados e consumidos na costa brasileira, como mexilhões, ostras e sururus.

As amostras foram coletadas entre maio e julho de 2024 durante a primeira expedição científica da Voz dos Oceanos com tripulação exclusivamente feminina. A equipe percorreu quatorze dos dezessete estados costeiros do Brasil, incluindo Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Pará.

Após a coleta, o material seguiu para análise no Instituto Oceanográfico da USP. A parceria também contou com apoio da Shimadzu, que forneceu o equipamento de microscopia, infravermelho e raman Airsight, avaliado em aproximadamente R$ 1 milhão. No CeLMar – CNPq, sob coordenação do professor Alexander Turra, os resultados indicaram um cenário preocupante: todas as localidades apresentaram animais com microplástico, e setenta por cento dos indivíduos analisados continham resíduos.

O estudo apontou ainda que Recife (PE) e Fortaleza (CE) registraram as maiores concentrações, com cinco partículas por grama de alimento. Em Santos (SP), Aracaju (SE) e Maceió (AL) foram encontradas de três a quatro partículas por grama. Já Itajaí (SC), Paranaguá (PR), São Sebastião (SP), Angra dos Reis (RJ), Vitória (ES) e Natal (RN) apresentaram valores inferiores a 0,5 partícula por grama.

Segundo a pesquisadora Marília Nagata, do Instituto Oceanográfico da USP, os dados aproximam algumas cidades brasileiras de níveis observados na Europa. Ela reforça que há necessidade de ampliar pesquisas no país para entender melhor a extensão da contaminação.

A pesquisa identificou ao menos quatorze tipos de polímeros, com predominância de EVA, polietileno, poliéster e PVC. Cerca de oitenta e cinco por cento das partículas eram fragmentos de plásticos antigos, evidenciando a persistência de resíduos lançados no ambiente há décadas. Em cidades como João Pessoa (PB), Recife (PE), Caravelas (BA), Vitória (ES), São Sebastião (SP) e Paranaguá (PR), fibras plásticas foram encontradas em mais de cinquenta por cento das amostras, sugerindo relação com lavagem de roupas sintéticas e degradação de apetrechos de pesca.

Para o professor Alexander Turra, o estudo revela um problema crônico. Ele alerta que a continuidade do descarte inadequado tende a ampliar o risco de consumo desses resíduos pela população. Em um exemplo prático, considerando um pastel com cem gramas de recheio, a estimativa é de ingestão de quinhentas partículas de microplástico em uma única refeição.

Heloisa Schurmann, uma das líderes da Voz dos Oceanos, destaca que a pesquisa expõe uma camada invisível da poluição plástica, presente nos alimentos consumidos diariamente. David Schurmann, CEO da Voz dos Oceanos, reforça a importância da mobilização social e de escolhas de consumo mais conscientes.

Outro ponto de atenção citado pelos pesquisadores é a necessidade de estratégias para reduzir a liberação de fibras sintéticas durante a lavagem de roupas, aprimorar sistemas de drenagem e retenção de partículas nas estradas e ampliar ações que impeçam a chegada de macroplásticos ao mar, como ecobarreiras instaladas em rios.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui