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Finanças regenerativas ganham espaço com uso de blockchain no mercado de carbono

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Modelos baseados em transparência e rastreabilidade buscam devolver confiança a investidores e consumidores

O mercado global de sustentabilidade vive um paradoxo. Enquanto a emissão de títulos verdes já ultrapassa US$ 1 trilhão em todo o mundo, a confiança dos investidores segue fragilizada. Casos recentes envolvendo créditos de carbono sem lastro ambiental e falhas de transparência em fundos ESG evidenciaram que estratégias de mitigação passiva não são mais suficientes.

Nesse cenário, as Finanças Regenerativas, conhecidas como ReFi, começam a ganhar tração como alternativa aos modelos tradicionais. Segundo levantamento da DataIntelo, o mercado global de plataformas ReFi foi avaliado em US$ 2,34 bilhões em 2024, com projeção de crescimento anual de 27% até 2033, indicando uma migração do capital para estruturas em que a integridade dos ativos pode ser verificada.

Para Odair Rodrigues, CEO da B4, primeira Bolsa de Ação Climática do Brasil, a incorporação de tecnologias capazes de garantir conformidade tende a pressionar sistemas antigos, marcados por baixa rastreabilidade e excesso de burocracia. Segundo ele, soluções baseadas em blockchain permitem criar um ambiente mais seguro, tanto para investidores quanto para os projetos ambientais.

De acordo com Rodrigues, a proposta é conectar projetos auditados por parceiros homologados aos mercados globais, garantindo rastreabilidade total desde a origem do crédito até a transação final. Essa lógica aproxima os mercados voluntário e regulado, ao integrar governança técnica e certificações digitais.

Auditorias de primeira parte aplicam metodologias específicas para quantificar emissões e transformá-las em unidades rastreáveis, o que permite maior escala e confiabilidade em um contexto de aumento das exigências regulatórias. Segundo o executivo, esse modelo prepara o Brasil para exportar não apenas commodities, mas também soluções estruturadas de carbono.

O avanço das ReFi ocorre em meio a um histórico recente de fragilidades no setor de finanças sustentáveis. Casos de dupla contagem de créditos, registros em áreas públicas ou sem proteção ambiental efetiva, ausência de consulta a comunidades locais e operações financeiras sem compliance adequado comprometeram a credibilidade do mercado.

Essas práticas revelaram a necessidade de um novo padrão, baseado em rastreabilidade, verificação independente e governança sólida. É nesse ponto que as finanças regenerativas se apresentam como uma correção de rota, ao combinar princípios da economia regenerativa com tecnologias digitais voltadas à transparência.

Diferentemente dos modelos tradicionais, as ReFi direcionam capital para ações de restauração ambiental e social com impacto mensurável, buscando valor de longo prazo em vez de ganhos extrativistas imediatos. A proposta beneficia investidores, originadores de créditos e instituições financeiras que precisam atender a critérios cada vez mais rigorosos.

O Brasil ocupa posição estratégica nesse cenário. O país reúne grandes biomas, extensas áreas passíveis de restauração e elevado potencial para projetos ambientais estruturados. Dados da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono indicam que o setor pode impulsionar o crescimento econômico em quase 6% até 2040 e em 8,5% até 2050.

Estimativas do Banco Mundial apontam ainda que as emissões de gases de efeito estufa dos setores regulados podem cair 21% até 2040 e 27% até 2050. O preço do carbono, segundo projeções, pode atingir US$ 30 por tonelada, avançando para US$ 60 em uma fase posterior do mercado regulado.

Para Odair Rodrigues, o momento exige o fortalecimento de políticas de conformidade que priorizem a transparência e criem ambientes seguros para o investimento sustentável. Ele avalia que tecnologias de rastreabilidade são essenciais para garantir que o capital direcionado ao mercado de carbono resulte, de fato, em restauração ambiental e fortalecimento social.

Segundo o executivo, mais do que comercializar créditos, o desafio agora é estruturar sistemas capazes de assegurar que cada transação corresponda a impacto real, mensurável e verificável.

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