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Soluções baseadas na natureza não são paliativas, são infraestrutura para as periferias

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*Por Dayse Vital

As periferias urbanas brasileiras estão entre os territórios mais expostos aos efeitos das mudanças climáticas. A ocupação densa, o predomínio de solo impermeável e a ausência histórica de investimentos em drenagem e áreas verdes criam um cenário em que chuvas intensas rapidamente se transformam em enchentes e períodos de calor extremo se tornam insuportáveis. O Relatório de Avaliação 6 do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), no grupo de trabalho sobre impactos e adaptação, aponta que áreas urbanas com baixa cobertura vegetal concentram riscos climáticos mais elevados e enfrentam maior dificuldade de resposta, o que aprofunda desigualdades sociais já existentes.

Nesse contexto, as Soluções Baseadas na Natureza deixam de ser iniciativas complementares para ocupar posição central no debate sobre adaptação urbana. Jardins de chuva, canteiros pluviais e biovaletas são amplamente reconhecidos como dispositivos capazes de reter, infiltrar e tratar a água da chuva no próprio território, reduzindo a pressão sobre sistemas convencionais de drenagem. Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, referência internacional em políticas e padrões ambientais urbanos, estruturas de biorretenção podem reduzir entre 30% e mais de 90% do volume de escoamento superficial, a depender do projeto e das características do solo. Estudo de referência sobre drenagem urbana sustentável publicado na Water Science & Technology mostra que esses sistemas também reduzem picos de vazão em eventos extremos, situação recorrente nas periferias brasileiras.

Os ganhos, no entanto, vão além do controle de enchentes. A ampliação de áreas permeáveis e vegetadas tem impacto direto na redução do calor urbano, problema que se intensifica com o aumento da frequência das ondas de calor. Revisão internacional sobre o papel da infraestrutura verde no resfriamento das cidades, publicada no Landscape and Urban Planning, aponta reduções médias entre 2°C e 5°C na temperatura local, com efeitos mais relevantes em áreas densas e pouco arborizadas. O próprio IPCC destaca que a evapotranspiração e a substituição de superfícies impermeáveis estão entre as estratégias mais eficazes e de menor custo para mitigar ilhas de calor em cidades de países em desenvolvimento.

Ainda assim, persiste a percepção de que soluções baseadas na natureza seriam insuficientes diante da escala dos desafios urbanos, funcionando apenas como intervenções pontuais. Essa leitura ignora o consenso técnico de que essas soluções não substituem obras estruturais, mas ampliam sua eficiência quando integradas ao planejamento urbano. O relatório “Soluções Baseadas na Natureza para a Resiliência Climática nas Cidades”, do Banco Mundial, indica que a combinação entre infraestrutura tradicional e infraestrutura verde reduz custos operacionais, melhora o desempenho dos sistemas de drenagem e fortalece a resiliência urbana no médio e longo prazo.

A efetividade dessas intervenções, porém, depende de governança e desenho institucional adequados. Estudos produzidos por agências das Nações Unidas e centros internacionais de pesquisa em cidades sustentáveis indicam que projetos em áreas periféricas exigem adaptação técnica ao território, participação dos moradores e articulação com políticas públicas de saneamento, drenagem e clima. Experiências em escolas reforçam esse diagnóstico ao demonstrar que sistemas de captação e reúso de água da chuva reduzem o consumo de água potável e fortalecem a educação ambiental, conforme análise publicada no Journal of Cleaner Production, em sustentabilidade aplicada.

Tratar soluções baseadas na natureza como infraestrutura urbana legítima é um passo decisivo para enfrentar a crise climática de forma mais justa. Ao transformar a água da chuva, o solo e a vegetação em ativos urbanos, essas soluções contribuem para reduzir riscos, melhorar o conforto térmico e corrigir distorções históricas na distribuição de investimentos públicos. Em um cenário de extremos climáticos cada vez mais frequentes, ignorar esse potencial significa aceitar que as periferias continuem sendo as primeiras a sofrer e as últimas a receber resposta.

*Dayse Vital é analista de Infraestrutura na Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES)

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