Levantamento da plataforma Escavador aponta aumento dos processos relacionados à poluição e revela mais de 122 mil ocorrências envolvendo crimes contra a fauna e a flora entre 2023 e 2026
O Brasil registrou mais de 160 mil processos relacionados a crimes ambientais entre 2023 e 2026, considerando ocorrências ligadas à poluição, à fauna e à flora. Os dados são de um levantamento realizado pela plataforma Escavador, que identificou crescimento expressivo das denúncias relacionadas à poluição, além da manutenção de elevados índices de infrações contra ecossistemas e biodiversidade.
A análise mostra que os processos relacionados à poluição aumentaram 66% entre 2024 e 2025. O volume passou de 10,9 mil ações para 18 mil registros em apenas um ano. Quando considerado todo o período analisado, o crescimento alcança 86%, saindo de 9,8 mil processos em 2023 para um acumulado de mais de 41 mil denúncias até 2026.
Os processos abrangem diferentes tipos de infrações ambientais, incluindo poluição da água, danos à fauna aquática, descarte irregular de resíduos, mineração ilegal, uso e transporte de substâncias tóxicas, degradação por radiação e atividades potencialmente poluidoras.
Segundo Dalila Pinheiro, coordenadora jurídica e DPO do Escavador, os números revelam um descompasso entre os compromissos ambientais e a realidade observada nos processos judiciais.
“Existe um contraste entre a agenda climática do país e o que aparece na prática. O mercado de carbono foca principalmente na redução de gases de efeito estufa, mas os problemas ambientais são mais amplos, envolvendo desde mineração ilegal até poluição e danos à fauna aquática. O aumento de 66% nesses processos mostra que ainda há um longo caminho até que o cumprimento das regras ambientais esteja de fato incorporado às atividades econômicas”, afirma.
No ranking nacional de processos relacionados à poluição, Minas Gerais lidera com 11.062 registros, seguido por Rio Grande do Sul (6.382), Santa Catarina (4.516) e São Paulo (3.691). Estados da Amazônia Legal também aparecem entre os maiores volumes processuais, como Pará (1.934), Roraima (1.270), Mato Grosso (1.128) e Rondônia (673).
“Isso reflete a pressão ambiental em regiões de expansão mineral, agropecuária e de exploração irregular”, explica Dalila.
Crimes contra a flora somam mais de 67 mil processos
O levantamento também contabilizou mais de 67 mil processos relacionados a crimes contra a flora no período analisado. Entre as principais infrações estão queimadas, incêndios florestais, desmatamento, extração ilegal de madeira, mineração clandestina em áreas de floresta e comercialização de produtos oriundos de exploração ilegal.
Apesar do volume elevado, os primeiros meses de 2026 apresentaram redução nos registros. Entre janeiro e maio, foram contabilizados 5,9 mil processos relacionados à flora. Março concentrou o maior número de ações, com 1,8 mil registros, enquanto maio apresentou apenas 300 ocorrências.
São Paulo lidera o ranking nacional de crimes contra a flora, com 15.160 processos, seguido por Minas Gerais (13.956), Santa Catarina (7.971) e Rondônia (3.922).
“Os crimes contra a flora estão ligados à pressão sobre os biomas. Queimadas, desmatamento e exploração ilegal impactam principalmente as áreas de vegetação nativa e regiões de preservação ambiental, indicando que a degradação continua avançando mesmo diante do aumento das discussões sobre sustentabilidade, mercado de carbono e iniciativas verdes”, afirma a especialista.
Crimes contra a fauna ultrapassam 55 mil registros
As infrações relacionadas à fauna também seguem em níveis elevados. Entre 2023 e 2026, foram identificados mais de 55 mil processos envolvendo caça ilegal, tráfico de animais silvestres, importação irregular de espécies, pesca ilegal, maus-tratos e degradação de ecossistemas aquáticos.
O número de ações passou de 16,6 mil para 17,9 mil registros no último ano analisado.
Entre os estados, São Paulo lidera novamente o ranking, com 14.839 denúncias, seguido por Minas Gerais (10.836), Santa Catarina (5.120) e Rio Grande do Sul (3.482). O Rio de Janeiro aparece na sequência, com 2.749 processos.
“Os dados indicam que há uma persistência de judicialização ambiental em diferentes frentes, como poluição, flora e fauna. Na prática, isso significa que os mecanismos de controle ainda enfrentam dificuldades para reduzir as práticas de degradação ambiental”, conclui Dalila Pinheiro.







