Estudo liderado por pesquisadores da UFSCar e da USP analisou 30 riachos e identificou redução de 1.446 vezes no fluxo de energia
A urbanização reduz a biodiversidade e altera o funcionamento dos riachos da Região Metropolitana de São Paulo, onde vivem mais de 22 milhões de pessoas. É o que mostra uma pesquisa publicada na revista Nature Cities e liderada por Victor Saito, docente do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e Luis Schiesari, docente de Gestão Ambiental da Universidade de São Paulo (USP). O estudo analisou 30 microbacias da região, na bacia do Alto Tietê, e identificou forte simplificação das redes alimentares nos locais mais urbanizados, acompanhada de uma redução de até 1.446 vezes no fluxo de energia.
Os pesquisadores escolheram 30 riachos de cabeceira para cobrir todos os estágios da ocupação urbana, de microbacias inteiramente florestadas a inteiramente urbanizadas. “Isso permitiu analisar a urbanização como um gradiente, em vez de simplesmente comparar locais urbanos e não urbanos”, explica Schiesari.
Em cada ponto, a equipe coletou invertebrados e peixes, identificou e contou os organismos e estimou o tamanho e a massa de cada um. Com esses dados, reconstruiu as teias alimentares de cada local. “As teias alimentares representam quem se alimenta de quem dentro do ecossistema”, resume Saito.
A perda de biodiversidade não foi aleatória. Com o avanço da urbanização, desapareceram tanto os organismos muito pequenos quanto os de maior porte, e os riachos urbanos ficaram dominados por organismos moderadamente pequenos. “Quando os maiores desaparecem, perdemos também uma parte específica da estrutura e do funcionamento da teia alimentar”, diz Saito.
Nos riachos mais preservados, os pesquisadores encontraram até 43 grupos de organismos conectados por até 190 interações alimentares. Nos ambientes mais urbanizados, algumas redes apresentaram apenas três interações. Segundo Schiesari, o colapso já se manifesta em microbacias com apenas 12,5% de cobertura urbana, ainda com expressiva cobertura florestal.
“Podemos imaginar uma teia alimentar como uma malha: quanto mais fios e conexões ela possui, mais complexas são as possibilidades de transferência de energia. A urbanização vai retirando esses fios até restar uma rede extremamente pequena, simplificada e potencialmente frágil”, compara Saito.
Nos trechos florestados, o fluxo de energia estimado foi de aproximadamente 353 quilojoules por metro quadrado por ano. Nos mais urbanizados, caiu para cerca de 0,24 quilojoule por metro quadrado por ano. “Não estamos dizendo apenas que há menos espécies nos riachos urbanos. Estamos mostrando que há muito menos vida sendo sustentada e muito menos energia circulando pela rede alimentar”, afirmam os pesquisadores.
Para os pesquisadores, a preservação dos riachos que ainda mantêm boas condições ambientais deve ser prioridade. Nos locais já degradados, a recuperação passa por melhorar o tratamento de esgoto e a qualidade da água, recompor a vegetação das margens, evitar novas canalizações e impermeabilizações e devolver ao leito sua variedade de formas. “Restaurar apenas alguns metros do canal dificilmente será suficiente se toda a água que chega até ele continuar carregando os impactos da urbanização”, observa Saito. “Recuperar um riacho não significa apenas melhorar sua aparência ou a qualidade da água; significa recuperar as condições necessárias para que sua biodiversidade, suas interações ecológicas e seus fluxos de energia voltem a funcionar.”
Além de UFSCar e USP, o estudo contou com a colaboração de cientistas da Unesp, da Unicamp, da UFABC e da University of Canterbury, da Nova Zelândia. Os resultados foram publicados no artigo Urban expansion and the collapse of tropical stream ecosystems, na Nature Cities, disponível em rdcu.be/fzUc6. A pesquisa teve financiamento da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação da USP e apoio da Fapesp e do CNPq.







