Carvão vegetal produzido a partir de florestas plantadas coloca Minas Gerais no centro da busca da siderurgia mundial por alternativas ao carvão mineral e amplia oportunidades para o ferro-gusa verde
A siderurgia está entre as atividades industriais com maior volume de emissões de gases de efeito estufa no mundo, em grande parte pelo uso de carvão mineral nos processos de produção. Nesse cenário, uma rota desenvolvida no Brasil há décadas começa a ganhar atenção internacional. Minas Gerais, maior produtor e consumidor mundial de carvão vegetal, reúne condições para ampliar sua participação na produção de aço de menor pegada de carbono, com base no uso de madeira de florestas plantadas.
Segundo Adriana Maugeri, presidente executiva da Associação Mineira da Indústria Florestal (AMIF), o país construiu uma experiência que hoje desperta interesse de mercados em busca de alternativas viáveis para a descarbonização da siderurgia. O carvão vegetal apresenta uma possibilidade já disponível em escala, enquanto outras rotas, como o hidrogênio verde e a eletrólise, ainda enfrentam desafios relacionados a custo, infraestrutura e disponibilidade de energia renovável.
O avanço da demanda internacional também aparece no mercado de ferro-gusa verde, produzido com carbono de origem vegetal associado ao minério de ferro. Segundo dados do Sindifer, 76,1% da produção nacional de ferro-gusa foi destinada ao mercado externo em 2025. No ano, o Brasil exportou 4,06 milhões de toneladas do produto, sendo 3,37 milhões de toneladas para os Estados Unidos, que responderam por cerca de 83% das exportações. Europa e Ásia também aparecem entre os destinos, com 392,8 mil toneladas e 55,8 mil toneladas, respectivamente.
“O mundo abriu os olhos para o ferro-gusa verde. É uma tecnologia que reúne o carbono vegetal e o minério de ferro em um produto que pode alimentar o alto-forno com baixa emissão”, afirma Adriana Maugeri.
A experiência mineira também está presente na produção de aço. Empresas instaladas no estado utilizam carvão vegetal proveniente de florestas plantadas em seus processos, com destaque para a Aperam, maior produtora de aço inoxidável da América Latina e uma das únicas com produção de aço 100% baseada em carvão vegetal. O modelo também se aplica à produção de ferroligas, utilizadas em segmentos como eletrônicos, satélites e aplicações medicinais.
“O Brasil tem uma oportunidade muito grande nessa discussão porque possui uma rota de descarbonização que já existe, tem produção e está sendo reconhecida pelo mercado internacional”, diz Adriana Maugeri.
A produção de carvão vegetal está diretamente associada à expansão das florestas renováveis em Minas Gerais. O estado possui cerca de 2,3 milhões de hectares de florestas plantadas, segundo dados da AMIF, com uma cadeia produtiva diversificada que inclui grandes empresas e pequenos e médios produtores. As florestas são destinadas a diferentes finalidades industriais, entre elas celulose, carvão vegetal e outros bioprodutos.
As florestas capturam dióxido de carbono durante o crescimento das árvores e mantêm parte desse carbono armazenado na biomassa e no solo. No caso dos plantios destinados à indústria, os ciclos produtivos brasileiros podem chegar a cerca de sete anos, resultado das condições climáticas e do desenvolvimento tecnológico aplicado ao melhoramento genético e ao manejo florestal. “Quando falamos de carvão vegetal, não estamos falando apenas de uma matéria-prima. Estamos falando de carbono renovável, de uma cadeia produtiva que envolve floresta, ciência, tecnologia, conservação e indústria”, explica Adriana Maugeri.
A AMIF estima que a demanda global por madeira pode dobrar até 2050. Nesse contexto, a expansão de florestas renováveis em áreas já degradadas pode contribuir para atender ao consumo industrial e reduzir a pressão sobre ecossistemas naturais. Com uma cadeia florestal consolidada e uma indústria que utiliza o carvão vegetal em diferentes processos, Minas Gerais reúne ativos para participar da transformação da siderurgia mundial e ampliar a presença brasileira em mercados que buscam produtos associados a menores emissões de carbono.







