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Tratado internacional contra poluição plástica é esperança, mas enfrenta impasse

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Na Escola SP em Ciência Avançada em Microplásticos, cientistas alertam que reciclagem sozinha não resolve o problema

Terminou na sexta-feira, 11 de setembro de 2026, a Escola São Paulo em Ciência Avançada em Microplásticos (ESPCA em Microplásticos), que reuniu durante duas semanas, em Campinas (SP), as principais referências do Brasil e do mundo na pesquisa sobre o tema e 125 jovens cientistas de todo o mundo. No simpósio de encerramento, o olhar voltou-se às soluções e, entre elas, tem destaque o Tratado Global para enfrentamento à poluição plástica, com o qual 175 países, incluindo o Brasil, se comprometeram em 2022.

Desde então, o tratado é considerado o acordo ambiental multilateral internacional mais importante desde o Acordo de Paris sobre o clima, em 2015, mas se encontra em um impasse, com oposição entre dois grupos de países: um reunindo cerca de dez países envolvidos na produção de petróleo e, de outro lado, a chamada Coalizão de Alta Ambição, formada por 66 países. No meio do caminho, figuram cerca de 100 nações, entre elas o Brasil, segundo os participantes da ESPCA que acompanham as negociações.

A previsão era que o tratado abrangesse todo o ciclo de vida do plástico, desde a sua produção até o descarte. Isso envolve, por exemplo, o olhar para as mais de 16 mil substâncias químicas associadas aos plásticos, dentre as quais milhares já são sabidamente danosas ao ambiente e à saúde humana. Martin Wagner, cientista da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, e Richard Thompson, pioneiro na pesquisa na área e cientista que pela primeira vez usou o termo microplástico, compartilharam no encerramento da ESPCA os pontos de discórdia que separam os produtores de petróleo, que se opõem a medidas voltadas à redução da produção defendendo o foco apenas na gestão de resíduos, do grupo de países que segue defendendo medidas relacionadas a todo o ciclo de vida do plástico.

“Se seguirmos apenas com a gestão de resíduos, o problema continua o mesmo. A Ciência diz que assim nunca iremos equacionar a questão. O que precisamos é pensar sobre o que estamos produzindo, e produzir melhor”, atestou Thompson. Outro ponto de discórdia diz respeito ao foco em medidas upstream, no início do ciclo de vida do plástico, onde se dá a possibilidade de design de produtos melhores e mais seguros, em contraposição às ações downstream, de gestão dos resíduos.

“Transversalmente, as ideias de transparência química, ou seja, de obrigação dos produtores em disponibilizar as informações sobre a composição de produtos plásticos, e de transição justa, que considere as necessidades e os direitos dos catadores de resíduos e garanta o equilíbrio entre nações em diferentes situações de desenvolvimento, devem estruturar as negociações sobre o tratado”, complementou Wagner.

Thompson defendeu que um tratado fraco, que aborde apenas a reciclagem, não teria nenhum sentido, e que uma opção em construção é que seja firmado acordo entre as nações ambiciosas, buscando a adesão das demais ao longo do tempo. Sobre os países indecisos, levantou a hipótese de que talvez permaneçam assim “porque não conhecem o que a Ciência já sabe e, além disso, são alvo de mensagens confusas, voltadas à defesa dos interesses daqueles que não querem reduzir a produção”.

Por isso, Thompson e Wagner, junto com cerca de 450 cientistas de 70 países, integram a Coalizão de Cientistas por um Tratado Efetivo, que participa como observadora nas negociações do tratado com o objetivo de compartilhar as melhores evidências científicas com as delegações dos diferentes países e combater a desinformação.

Com coordenação de Cassiana Montagner, docente no Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e vice-coordenação de Walter Waldman, docente no Departamento de Química, Física e Matemática da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a ESPCA em Microplásticos foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

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