Início Noticias Oxfam expõe desigualdade climática e evidencia urgência das compensações

Oxfam expõe desigualdade climática e evidencia urgência das compensações

27
0

Relatório aponta concentração extrema de emissões entre os mais ricos e reforça a necessidade de regras para dar escala e credibilidade ao mercado de carbono

Um novo relatório da Oxfam voltou a escancarar a desigualdade no centro da crise climática global. Segundo o estudo, nos primeiros dez dias do ano o 1% mais rico da população mundial já havia consumido toda a sua cota justa de emissões de carbono prevista para 2026, considerando o limite de aquecimento de 1,5 °C estabelecido pelo Acordo de Paris.

O dado reacende o debate sobre responsabilidade climática, justiça social e a urgência de mecanismos regulatórios capazes de controlar, precificar e reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A constatação reforça que a crise climática não é resultado do consumo médio da população, mas de um padrão altamente concentrado de emissões.

Para Odair Rodrigues, CEO da B4, primeira bolsa de ação climática do Brasil, o relatório evidencia um problema estrutural. As emissões seguem concentradas entre poucos agentes econômicos, enquanto os instrumentos de controle e compensação avançam de forma lenta e desigual entre países e setores. Segundo ele, tratar todos como igualmente responsáveis distorce a realidade e enfraquece a resposta climática. Sem um mercado de carbono regulado, transparente e confiável, o problema permanece sem correção efetiva.

Estimativas citadas no estudo indicam que as emissões geradas pelo 1% mais rico em apenas um ano podem causar até 1,3 milhão de mortes relacionadas ao calor extremo até o fim do século. Os danos econômicos associados ao consumo excessivo de carbono recaem, principalmente, sobre países de baixa e média renda, com prejuízos que podem chegar a US$ 44 trilhões até 2050.

Nesse contexto, o mercado de carbono regulado surge como um instrumento central para internalizar custos ambientais hoje ignorados, corrigir distorções econômicas e direcionar investimentos para atividades de baixo carbono. Diferentemente de iniciativas voluntárias isoladas, um mercado regulado estabelece critérios obrigatórios de mensuração, verificação independente e limites claros de emissões, criando incentivos econômicos reais para a descarbonização.

Segundo Rodrigues, o ano marca uma virada decisiva. As ferramentas para mensurar emissões já existem, mas, sem regulação, o carbono continua sendo tratado como uma externalidade gratuita. Com regras claras, ele passa a ter preço, responsabilidade e consequência, alterando a lógica econômica dos negócios.

Um dos principais entraves apontados é a fragmentação regulatória, tanto no Brasil quanto no cenário internacional. A ausência de padrões consolidados abre espaço para insegurança jurídica, práticas de greenwashing e perda de credibilidade, fatores que afastam investidores e reduzem o impacto ambiental positivo do mercado. Avanços regulatórios são considerados essenciais para garantir integridade ambiental, rastreabilidade dos créditos e alinhamento com metas climáticas globais.

Dados da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono indicam que o setor pode elevar o crescimento adicional da economia brasileira em quase 6% até 2040 e 8,5% até 2050. Estimativas do Banco Mundial apontam que as emissões de setores regulados poderiam cair 21% até 2040 e 27% até 2050. O preço da tonelada de carbono pode alcançar US$ 30 em uma primeira fase, chegando a US$ 60 em etapas posteriores.

Em novembro, o governo federal sinalizou que pretende publicar todas as normas infralegais necessárias para a adoção do mercado regulado de carbono no Brasil até dezembro de 2026. O relatório da Oxfam reforça que essa agenda vai além da dimensão ambiental. Trata-se também de uma questão econômica e social, capaz de direcionar recursos para mitigação, adaptação climática e desenvolvimento sustentável, especialmente em países do sul global.

Para Rodrigues, sem marcos regulatórios robustos, fiscalização efetiva e integração entre políticas públicas e instrumentos de mercado, a desigualdade de emissões tende a se aprofundar, enquanto a janela para limitar os danos climáticos continua a se fechar.

Em dezembro, a B4 anunciou o início da divulgação diária de boletins sobre a flutuação de preços dos ativos sustentáveis listados em seu ambiente de negociação. A iniciativa busca ampliar a transparência e facilitar o acesso às informações, considerando tanto a dinâmica de oferta e demanda quanto as variações cambiais. Atualmente, a bolsa monitora em tempo real os índices do Programa Brasileiro GHG Protocol, ferramenta criada em 2008 para estimar as emissões de gases de efeito estufa.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui