Início Artigos Como a evolução da saúde diagnóstica pode prevenir colapsos nas mudanças climáticas

Como a evolução da saúde diagnóstica pode prevenir colapsos nas mudanças climáticas

76
0

* Por Simone Vicente Reis 

A preservação do meio ambiente não é apenas uma agenda ambiental, é também uma agenda de saúde pública. Em um contexto de mudanças climáticas cada vez mais evidentes, eventos extremos impõem novos desafios aos sistemas de saúde no mundo. Após a COP30, realizada no Brasil em 2025, esse vínculo ganhou um direcionamento mais concreto com o lançamento do Plano de Ação em Saúde, que parte da premissa que os efeitos das mudanças climáticas já impactam a saúde das populações e pressionam a infraestrutura assistencial, especialmente em países em desenvolvimento.

Esse plano passou a estar no centro da agenda climática e aponta caminhos para fortalecer o sistema de saúde diante de um cenário de riscos crescentes. Com isso, a ideia deixa de ser conceito e passa a ser prioridade de gestão para prevenir riscos, responder a emergências e proteger grupos mais vulneráveis, um esforço que exige coordenação, planejamento e decisões baseadas em evidências.

Eventos climáticos extremos como ondas de calor, enchentes, secas e incêndios florestais já representam riscos concretos na saúde das populações e, no Brasil, esses impactos também são observados. De acordo com o estudo lançado em 2025, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação [1], as ondas de calor têm se tornado mais recentes no país, causando agravos na saúde principalmente de idosos, crianças e populações mais vulneráveis.

A literatura internacional reforça esse quadro ao apontar que os efeitos climáticos se expressam em desfechos concretos de saúde ao longo de toda a vida, com impactos físicos, cognitivos e psicológicos. Entre os efeitos mais associados estão agravos respiratórios e cardiovasculares, maior exposição a doenças infecciosas, efeitos sobre a saúde mental e maior vulnerabilidade entre gestantes, recém-nascidos, crianças, idosos e populações em situação de maior fragilidade social. [2]

No entanto, o impacto na saúde não se limita apenas aos efeitos climáticos, também estão atrelados à degradação do meio ambiente, a qualidade do ar, da água e dos alimentos, fontes que são determinantes para a saúde. Com a poluição do meio ambiente, estamos cada vez mais expostos a doenças, como por exemplo as respiratórias, que apontaram 102.421 casos apenas no primeiro semestre de 2025 e cânceres, com estimativa de 781 mil novos casos no Brasil entre 2026 e 2028.

Também há evidências de que o calor extremo e a piora das condições ambientais impactam diretamente a assistência. Segundo informações reunidas pela OMS, cada aumento de 1 °C na temperatura mínima diária acima de 23,9 °C pode elevar em até 22,4% o risco de mortalidade infantil, enquanto estudos compilados na literatura científica indicam aumento do risco de parto prematuro em contextos de maior calor e ondas de calor [2]. No mesmo cenário, a piora da qualidade do ar, as queimadas, a umidade após enchentes e a expansão de vetores ampliam a pressão sobre o sistema de saúde com mais doenças respiratórias, cardiovasculares e infecciosas.

Outro aspecto central é a segurança alimentar, com mudanças no clima que alteram a qualidade dos alimentos, aumentando o risco de insegurança alimentar e nutricional, agravando desigualdades sociais e ampliando a incidência de doenças relacionadas à má nutrição, além de favorecer o surgimento e a disseminação de doenças infecciosas.

Esse elo entre clima, alimentação e saúde pública já aparece de forma contundente em relatórios internacionais. Segundo o IPCC, consumidores de baixa renda estarão em maior risco, podendo haver aumento de até 183 milhões no total de pessoas em risco de fome em comparação com um cenário sem mudanças climáticas. A OPAS e a ONU também destacam que 74% dos países da América Latina e do Caribe apresentam alta exposição a eventos climáticos extremos que afetam a segurança alimentar, o que amplia a pressão sobre a saúde, especialmente em grupos mais vulneráveis. [3][4][5]

Na prática, isso significa avançar em sistemas capazes de cruzar dados climáticos, ambientais e epidemiológicos para antecipar riscos sanitários. O próprio Plano de Ação em Saúde de Belém, estabelece como eixos a vigilância e o monitoramento, a formulação de políticas com base em evidências, a capacitação e a inovação, além de prever investimentos em integração de dados críticos de clima e saúde para apoiar sistemas mais resilientes [7].

Nesse contexto, a medicina diagnóstica torna-se ainda mais estratégica à medida que fatores ambientais passam a influenciar diretamente o perfil epidemiológico das populações, crescendo a importância de sistemas capazes de detectar precocemente doenças, monitorar tendências e apoiar decisões clínicas baseadas em dados. Na radiologia, estudos de ciclo de vida indicam que reduzir exames desnecessários, priorizar modalidades de menor impacto ambiental, quando clinicamente equivalentes, e revisar protocolos para evitar sequências pouco úteis podem diminuir emissões sem comprometer a qualidade assistencial. [8] [9] [10]

Embora ainda raso, estudos apontam que a direção concreta para a medicina diagnóstica, diante do avanço de variações do climáticas, é identificar precocemente agravos respiratórios, cardiovasculares e infecciosos, acompanhando e rastreando mudanças no perfil epidemiológico em tempo real. Nesse contexto, o valor do diagnóstico não está apenas no exame individual, mas também na capacidade de transformar informação clínica em inteligência para resposta rápida. [2] [7]

Para isso, é necessário ampliar o uso de dados na saúde para fornecer respostas mais concretas, ágeis e coordenadas. Ao integrar dados clínicos, ambientais e populacionais, a medicina diagnóstica contribui para antecipar riscos, orientar políticas públicas e fortalecer a capacidade de resposta do sistema de saúde diante de emergências climáticas.

Na medicina laboratorial, a sustentabilidade vem sendo associada à revisão do processo total de testagem, com foco na redução de exames repetitivos ou sem indicação clara, na digitalização de rotinas de qualidade, na racionalização do transporte e da logística de amostras, na gestão de resíduos e no uso mais eficiente de água, energia e insumos. A literatura mostra que diminuir testagem desnecessária pode gerar ganhos clínicos, econômicos e ambientais ao mesmo tempo, reforçando que sustentabilidade, eficiência e cuidado de maior valor caminham juntos. [11]

Um exemplo promissor dessa integração é o uso combinado de dados sobre calor extremo, poluição do ar, qualidade da água, circulação de vetores e ocorrências epidemiológicas com dados clínicos e assistenciais. Esse tipo de articulação pode ajudar a antecipar aumento de internações, reorganizar fluxos, direcionar recursos, reforçar estoques e orientar ações preventivas em territórios mais expostos. A própria literatura destaca que monitorar qualidade da água, qualidade do ar em ambientes internos e impactos sobre a produção agrícola será cada vez mais necessário para sustentar adaptações centradas nas pessoas. [2][7]

Ao mesmo tempo, o próprio setor de saúde precisa reconhecer sua responsabilidade na agenda ambiental. Avançar em eficiência energética, reduzir desperdícios, otimizar o uso de recursos e adotar práticas mais sustentáveis como caminhos para diminuir o impacto ambiental das atividades assistenciais e contribuir para um sistema de saúde mais resiliente.

Em um mundo onde os impactos ambientais já se traduzem em riscos concretos à saúde, antecipar desafios tornou-se uma necessidade. Investir em prevenção, ciência, vigilância e inovação será essencial para proteger pessoas e fortalecer sistemas de saúde capazes de responder aos desafios de um planeta em transformação.

Referências:

  1. Brasil. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Clima em síntese: estudos sobre saúde e ondas de calor no Brasil (2015- 2025) / Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. — Brasília: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, 2025.
  2. Journal of Global Health. Climate change throughout the life cycle: impacts on health. Disponível em: https://jogh.org/2024/jogh-14-03018
  3. 3. Observatório de Clima e Saúde / Fiocruz. Conteúdo sobre mudanças climáticas, saúde e segurança alimentar. Disponível em: https://obha.fiocruz.br/?p=1584
  4. 4. OPAS. Novo relatório da ONU: 74% dos países da América Latina e do Caribe têm alta exposição a eventos climáticos extremos que afetam a segurança alimentar. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/27-1-2025-novo-relatorio-da-onu-74-dos-paises-da-america-latina-e-do-caribe-tem-alta
  5. 5. ONU Brasil. Eventos climáticos extremos afetam segurança alimentar de 74% dos países da América Latina e Caribe. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/288509-onu-eventos-clim%C3%A1ticos-extremos-afetam-seguran%C3%A7a-alimentar-de-74-dos-pa%C3%ADses-da-am%C3%A9rica
  6. 6. FAO, IFAD, UNICEF, WFP, WHO. The State of Food Security and Nutrition in the Dado citado no material de apoio enviado pelo usuário.  
  7. 7. COP30 Brasil. Brasil lança primeiro plano de adaptação climática para saúde na COP30. Disponível em: https://cop30.br/pt-br/noticias-da-cop30/brasil-lanca-primeiro-plano-de-adaptacao-climatica-para-saude-na-cop30
  8. Roletto A, Zanardo M, Bonfitto GR et al. The environmental impact of energy consumption and carbon emissions in radiology departments: a systematic review. European Radiology Experimental. 2024. 

*Simone Vicente Reis é CEO da Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem (FIDI). 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui