Márcio Ito, professor do curso de Moda da Faculdade Santa Marcelina, mostra como escala, velocidade, logística e inovação podem gerar ensinamentos para o futuro da indústria
Ao mesmo tempo em que 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis são geradas anualmente, a duração das roupas antes do descarte diminuiu 36% entre 2000 e 2015. Os dados da The Global Fashion Agenda e da Fundação Ellen MacArthur expõem uma das principais contradições do fast fashion: um modelo que ampliou a escala e acelerou o acesso à moda, mas que enfrenta o desafio de equilibrar produção, demanda e descarte.
Para Márcio Ito, professor do curso de Moda da Faculdade Santa Marcelina, a resposta passa por cinco aprendizados.
Escala como ferramenta de transformação
A capacidade de produzir em larga escala, característica central do fast fashion, também pode ser utilizada para tornar novas soluções mais acessíveis. Um exemplo é a evolução no uso de materiais alternativos por grandes redes: em 2025, 91% dos materiais utilizados nos produtos comerciais da H&M eram reciclados ou provenientes de fontes sustentáveis, segundo o relatório de sustentabilidade da companhia. “Quando pensamos em escala, são essas marcas que conseguem fazer o movimento de mudança ser real e mais acessível com práticas de sustentabilidade e recuperação de matéria-prima”, explica Ito.
Velocidade é estratégia
A agilidade do modelo não está restrita ao tempo entre criação das roupas e chegada às lojas. Para Ito, a leitura de diferentes mercados, planejamento de coleções, produção, logística e capacidade de responder ao desejo do consumidor são motores potentes e funcionais do fast fashion como indústria.
Equilíbrio entre produção e demanda
A logística do fast fashion ajuda a explicar como a indústria consegue colocar novos produtos no mercado em ciclos cada vez mais curtos, mas evidencia o desafio de equilibrar produção, demanda e reaproveitamento. Para Ito, o principal aprendizado está em aproximar logística e demanda, produzindo e distribuindo de forma mais alinhada ao consumo real e criando fluxos para que produtos que não atendem mais ao primeiro consumidor possam retornar à cadeia por meio de revenda, reutilização ou reciclagem. “Para onde vai o excesso, como ainda temos capacidade de absorção de tantos novos produtos?”, indaga o especialista.
Repetição e o mercado de segunda mão
Se o fast fashion ajudou a tornar a novidade mais acessível, a repetição constante também pode reduzir a percepção de permanência de uma peça. “Tudo que vem rápido com muitas repetições e com preço baixo passa a ser menos valorizado, não há necessidade de atemporalidade. Com isso, cresce a quantidade de brechós e negócios second-hand, em que preços são mais acessíveis e tem maior qualidade”, avalia Ito. Segundo o Resale Report 2026, da ThredUp e GlobalData, o segmento global de second-hand deve chegar a US$ 393 bilhões até 2030, crescendo duas vezes mais rápido que o mercado geral de vestuário.
Parcerias potencializam a inovação
Há um movimento de marcas de fast fashion se atrelando a empresas conhecidas pela sustentabilidade, como a H&M em parceria com a Stella McCartney. Para Ito, a questão não é apenas criar coleções em parceria, mas utilizar a estrutura das grandes empresas para ampliar soluções que antes estavam restritas a projetos menores. “A troca entre redes de fast fashion e estilistas e marcas de pequeno porte possibilita maior investimento de tecnologia, inovação e transformação, além de potencializar criações que por si só seriam de menor escala”, conclui o especialista.







